exposição
Centro de Cultura e Turismo SESC Ver-o-peso
De 30 de outubro de 2025 a 9 de janeiro de 2026
terça a sábado, das 10h às 18h; domingo, das 10h às 13h - Entrada gratuita.
Boulevard Castilhos França, 522 e 523, Campina, Belém/Pará
Desde 2006 o Instituto Hercule Florence (IHF) se dedica à coleta, organização e divulgação de fontes sobre os viajantes e naturalistas que percorreram o Brasil no século XIX, com destaque para Hercule Florence (1804-1879).
De origem franco-ítalo-monegasca, Florence aportou no Rio de Janeiro (RJ) em 1824, participou da Expedição Langsdorff (1826-1829, fazendo seu único relato completo) e se radicou em Campinas (SP), onde produziu vasta obra textual, iconográfica e criativa, colocando em prática a própria afirmação: “O homem só exerce a plenitude de sua natureza divina quando inventa para melhorar a vida de seus semelhantes”.
Dentre suas inúmeras descobertas inovadoras está a fotografia, em 1833. Ele foi o primeiro a cunhar a palavra photographie (“escrever com a luz”) e a usar sais de ouro como elemento fotossensível. As imagens obtidas são visíveis até hoje e consideradas as mais antigas das Américas.
A exposição A vida em invenções: Hercule Florence e a Photographie dialoga com as “Máquinas de filosofar” do Sesc Ver-o-Peso e tem como parceiros o Instituto Moreira Salles (IMS) e a Casa da Floresta UNESP/ Peabiru.
Através da colaboração entre IHF e IMS foram, são e serão desenvolvidas ações conjuntas, nacionais e internacionais, em prol do reconhecimento da vida e obra de Hercule Florence.
Neste esforço nos aliamos à Casa da Floresta UNESP/Peabiru, de forma que o passado não seja uma âncora, mas sim o ponto de partida para reflexão e produção de novos caminhos e conhecimentos.
Francis Melvin Lee
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ANTOINE HERCULE
ROMUALD FLORENCE (1804–1879),
nascido em Nice, então parte do Ducado de Saboia, foi inventor de um dos primeiros processos fotográficos do
mundo. Desenhista, pintor, tipógrafo, naturalista e fazendeiro, transferiu-se para o Brasil em 1824 e, de 1825 e
1829, integrou a Expedição Langsdorff como ilustrador. Após a viagem, estabeleceu-se em Campinas em 1830, onde
realizou pesquisas pioneiras em fotografia e produziu uma vasta obra gráfica sobre o Brasil do século XIX.
Florence viveu no país até sua morte em Campinas, em 1879, tornando-se uma das figuras centrais da história
cultural e científica brasileira.
Filho de Arnaud Florence e Augustine de Vignallys, nasce Antoine Hercule Romuald Florence em 28 de fevereiro 1804 em Nice (se tornaria parte da França em 1860).
Mónaco em 1813 (manuscrito “Memorial de Mônaco”) Aquarela sobre papel Archives du Palais de Monaco (Mônaco)
1807
Após o falecimento do pai, a família se muda de Nice para Mônaco, país natal de sua mãe. Em Mônaco, Hercule
passou
sua infância e juventude.
1818
Em Mônaco, trabalha como desenhista e calígrafo.
La Frégate la Marie-Thérèse, au Mouillage
de Montevideo, 1826. Carnet de croquis
personnels de Charles Bazoche
1826
Aguada de nanquim e aquarela sobre papel
Coleção particular
1824
Inspirado pela leitura do Robinson Crusoé de Daniel
Defoe, decidiu embarcar como tripulante na fragata
Marie Thèrese comandada pelo capitão Claude
Charles Marie du Campe de Rosamel. A fragata
aportou no Rio de Janeiro em 1824, um ano e meio
após a declaração da independência brasileira.
Rio de Janeiro
Hercule Florence decidiu ficar no Rio de Janeiro e trabalhou em estabelecimentos comerciais franceses até ler um
anúncio publicado em 7 de julho de 1825:
(Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, nº 6, 7 jul 1825, p. 23.)
Foi uma viagem de pesquisa realizada no Brasil do século XIX, organizada por Georg Heinrich von Langsdorff, médico alemão naturalizado russo e cônsul da Rússia no Império do Brasil. Com financiamento do Império Russo, Langsdorff reuniu naturalistas, cartógrafos e artistas para registrar a natureza e a vida social em diferentes regiões do terrritório brasileiro. Na segunda etapa da expedição (1825-1829), contou com Hercule Florence como desenhista, responsável por imagens de paisagens, plantas, animais e do cotidiano.
Costume
Porto Feliz, 1826
Grafite, nanquim, aguada de nanquim,
aquarela e tinta ferrogálica sobre papel
19,8 x 25,5 cm
Coleção Cyrillo Hercules Florence / Instituto Moreira Salles
Na espera pelos preparativos da viagem, Hercule Florence registra os habitantes da região paulista e seus costumes.
A viagem tem início em Porto Feliz e percorre entre os anos de 1826 e 1829 os atuais Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Pará, principalmente através de caminhos fluviais.
Sem título (Família Álvares Machado), s.d.
Nanquim, aguada de nanquim, aquarela e
guache sobre papel
22,0 x 27,6 cm
Coleção Cyrillo Hercules Florence /
Instituto Moreira Salles
Desenhado em Porto Feliz (SP), retrata o casal Cândida e Francisco Alvares Machado Vasconcellos ladeados pela filha Maria Angélica (com quem Hercule se casaria após a Expedição Langsdorff) e o enteado Joaquim Inácio, em uma sala com objetos científicos.
EMBOCADURA DO RIO PARDO (MS)
18 de agosto de 1826
“Chegamos à embocadura do Rio Pardo, sempre
à direita, célebre por sua navegação laboriosa e
pela força de sua correnteza, que vamos agora
subir; o rio é conhecido igualmente por seus
lindos campos que substituem a monotonia das
eternas florestas do Tietê e do Paraná, onde
podemos sair da estreita barraca da canoa para
atravessar campos e colinas."
Queimada dos campos, Rio Pardo
s.d.
Aquarela e guache sobre papel
Coleção Cyrillo Hercules Florence / Instituto
Moreira Salles
SANTOS (SP)
4 de setembro de 1825
"Santos, cidade de seis mil
habitantes, onde vimos
apenas um veleiro
três-mastros português e
algumas embarcações de
cabotagem, é, todavia, o
primeiro porto da província."
[Casas velhas de Santos]
[1826]
Aquarela e nanquim sobre papel
Bibliothèque national de France (Paris)
CHAPADA DOS GUIMARÃES (MT)
29 de abril de 1827
"Para pintar o que vi na chapada,
me faltam somente as expressões;
se as pudesse achar, repetiria vinte
vezes a mesma coisa, e os leitores
me leriam até o fim sem nunca se
cansarem do meu entusiasmo."
3me vue des Rochers de la Chapada.
Environs de Guimarães.
1827
Aguada de nanquim sobre papel
Coleção Arquivo da Academia de Ciências
(São Petersburgo)
SALTO AUGUSTO (MT)
2 de maio de 1828
“Basta descer um pouco e tomar a
esquerda, para o viajante ir dar a uma
plataforma de rochedos, da qual se vê a
catarata em suas totais dimensões, que
a fazem célebre, assim suas três quedas
e os perigos que aí se enfrentam.”
Chute du Juruenna dite Salto-Augusto. 1ere feuille
1828
Aguada de nanquim sobre papel
Coleção Arquivo da Academia de Ciências
(São Petersburgo)
Foto Claus Meyer
Femme et enfant Mandurucús. aux
bas-fonds appellés Tiacoron à la Riv.e
Tapajós
1828
Aquarela sobre papel
Coleção Arquivo da Academia de
Ciências (São Petersburgo)
ENCONTRO COM O
POVO MUNDURUKU (PA)
1828
“Por volta do 6º ou
7º dia de nossa estadia
em Tocarisal, um grupo
Munduruku passou pela
floresta em frente ao
nosso acampamento,
do outro lado do rio.”
Caxoeira de S. Florencio - Acampamento
próximo à Cachoeira de São Florêncio, rio
Juruena e encontro com outras monções.
Detalhe do manuscrito L’Ami des Arts…]
1837-1859
Nanquim e lápis sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
SÃO FLORÊNCIO, RIO JURUENA (AM)
Junho de 1828
“Segue-se a passagem de cachoeira
Misericórdia e, na manhã do dia posterior,
a arribada à de São Florêncio, uma das
maiores destes sítios. Cheia de mato, uma
ilha divide-a em dois braços; à jusante,
termina-a bela praia, onde comodamente
estabelecemos parada.”
Arrivée à Itaituba [Detalhe do manuscrito
L’Ami des Arts…]
1837-1859
Lápis e tinta ferrogálica sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
ITAITUBA (PA)
13 de junho de 1828
"O distrito chama-se Itaituba, sua
população, pouco numerosa, é
composta de portugueses e seus
escravos, por brasileiros e maués,
que são os mais numerosos."
Vue de Santarem sur le Tapajós, prise du
coté de l'Ouest
1828
Aquarela sobre papel
Coleção Arquivo da Academia de
Ciências (São Petersburgo)
SANTARÉM (PA)
1º de julho de 1828
“Bela cidade é Santarém, situada na
confluência do Tapajós com o Amazonas.
Localiza-se à margem oriental do
primeiro desses rios, em terreno plano,
com suave inclinação para a água.”
Un bras de l’Amazone [Detalhe do
manuscrito L’Ami des Arts…]
1837-1859
Lápis e tinta ferrogálica sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
BRAÇO DO RIO AMAZONAS (PA)
Setembro de 1828
“Para explicar como no Amazonas se
pode ver água a perder de vista, assim
como no mar, direi que às vezes nos
encontramos em meio a uma extensão de
água onde não há ilhas; e como as
margens já distantes são formadas
apenas por uma fileira de árvores (...).”
Florence registrou em desenhos e aquarelas paisagens, rios, animais, plantas e costumes observados no percurso da expedição. Esse trabalho sistemático de documentação o fez refletir sobre a dificuldade de reproduzir imagens em grande número e com mais fidelidade e cores do que o desenho permitia. Isso o levou a buscar novas soluções para a impressão e a reprodução visual.
Nº 128 (Suindara, Tyto furcata)
1827
Aquarela sobre papel, 33,1 x 22,2 cm
Coleção Arquivo da Academia de
Ciências (São Petersburgo)
Nº 37. Pacú pintado.
1828
Aquarela sobre papel
24,3 x 32,8 cm
Coleção Arquivo da Academia de
Ciências (São Petersburgo)
[Flor Rodriguesia]
1829
Aquarela e nanquim sobre papel
34,7 x 24,6 cm
Coleção Arquivo da Academia de
Ciências (São Petersburgo)
[Detalhe do manuscrito L’Ami des Arts…]
1837-1859
Lápis e tinta ferrogálica sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
BELÉM (PA)
16 de setembro de 1828
“Bonita é a cidade. […] Uns trinta
navios mercantes ingleses,
norte-americanos, portugueses e
brasileiros, um francês, um sardo,
dois brigues de guerra, da marinha
brasileira, e um francês […] estão
fundeados na baía.”
DE BELÉM (PA) AO RIO DE JANEIRO (RJ)
13 de março de 1829
“Dois dias depois de termos perdido de
vista a terra, continuávamos a tirar do
mar água doce, para saciar a sede.
Decorridos quinze dias, quase
naufragamos, por imperícia do capitão,
num escolhos da costa maranhense. […]
Felizmente, ao cabo de 45 dias de
travessia, arribamos ao Rio de Janeiro.”
[Detalhe do manuscrito L’Ami des Arts…]
1837-1859
Lápis e tinta ferrogálica sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
Sem título [Carolina amamentando no
atelier de Florence, tendo a prensa
poligráfica ao lado]
s.d.
Aquarela, nanquim, guache e tinta
ferrogálica sobre papel
21,0 x 27,3 cm
Coleção Cyrillo Hercules Florence /
Instituto Moreira Salles
CAMPINAS (SP)
1829
Fim da Expedição. Estabelece-se em Campinas
(então denominada Vila de São Carlos), onde
residiu até os 75 anos, falecendo em 1879.
“As florestas estão repletas de açaí, uma linda palmeira pequena que produz cachos de cocos minúsculos dos quais se faz uma bebida deliciosa.”
Hercule Florence
Com múltiplos interesses e habilidades, foi inventor, pintor, desenhista, naturalista, tipógrafo, humanista e professor. Vamos conhecer algumas de suas invenções?
ZOOFONIA
1829
Encantado com a sinfonia da natureza brasileira,
Florence percebeu que cada animal tinha sua
própria “voz”: sons diferentes para acasalamento,
defesa ou alerta, distintos entre machos e fêmeas.
Fascinado, criou a Zoofonia, um método inédito
de registrar esses sons por meio da notação
musical — substituindo o uso de onomatopeias
para imitar o som dos animais.
“Seria necessário ter viajado como eu, por mais de três anos através dos vastos territórios do Brasil, para saber como é impressionante ouvir uma multidão de animais, com sons tão diferentes um do outro."
Systéme de l'art d'ecrire la voix des animaux [Página do livro Recherches sur la voix des animaux, ou Essai d’un nouveau sujet d'études, offert aux amis de la nature, de Hercule Florence (Rio de Janeiro: Typographia de R. Ogier, 1831)]
POLIGRAFIA
1831
A dificuldade para imprimir as
partituras da Zoofonia instigou
Florence a criar técnicas gráficas.
Em 1830 idealizou a Poligrafia,
que dispensava as pesadas
matrizes em negativo e prensas
da gravura tradicional e, acima
de tudo, permitia a impressão
simultânea de várias cores.
NÓRIA HIDROSTÁTICA
1835
Homem prático, Florence
dedicou-se à solução de
problemas cotidianos,
projetando nórias
hidráulicas para
bombeamento contínuo
de água, teares para
produção de chapéus e
veículos a tração animal
para as estradas paulistas.
PAPEL-MOEDA
1838
O Papel Inimitável utilizava a
impressão poligráfica e
simultânea de todas as cores
para criar padrões irrepetíveis
que poderiam ser utilizados
em papel-moeda, evitando
sua falsificação.
Papel inimitável: impressão simultânea de
todas as cores
1870
Impressão poligráfica sobre papel
Instituto Moreira Salles / Coleção Cyrillo
Herculkes Florence
ATLAS DOS CÉUS
1830-1844
Em seus
Etudes de ciels, à
l'usage des jeunes paysagistes
,
ou Atlas ou Teatro
Pittoresco-Céleste, Florence
reuniu “os mais lindos, os mais
brilhantes e os mais variados”
céus, nuvens, formas, cores e
efeitos causados por
condições climáticas, horas do
dia e atividades humanas
(como as queimadas) para
servir aos jovens artistas como
referência para suas
composições.
REGISTRAR A PASSAGEM DO TEMPO,
A LUZ E O MOVIMENTO EM PINTURAS
1832
No campo da pintura, Florence
estudou técnicas óticas e cinéticas
que pudessem retratar a natureza
dinâmica da luz, das nuvens, da
fumaça, da fugacidade e da passagem
do tempo. Suas primeiras experiências
foram os tableaux transparents, onde
o brilho de uma vela percebido
através de pequenos furos no papel
mimetizava o cintilar das estrelas.
ORDEM PALMIANA
1852
Impressionado com as
palmeiras vistas durante a
Expedição Langsdorff, criou
um estilo arquitetônico
inspirado no buriti, babaçu
(guaguaçú), carandá, bocaiúva
(bocajuva) e outras espécies.
“Uma palmeira é um pequeno
templo onde se vê a coluna, o
pedestal, o capitel, a abóbada
e a cúpula...”.
Usando câmeras escuras e papéis fotossensibilizados com sais de ouro ou prata, Florence criou as primeiras imagens fotográficas das Américas.
Desenvolveu também um suporte que permitia sensibilizar várias matrizes ao mesmo tempo. Assim, produzia cópias fotográficas por contato, em positivo, fixadas com urina — e que permanecem visíveis até hoje.
Cunhou a palavra photographie (escrever com a luz) em 1833. Isso aconteceu seis anos antes da utilização do termo pelo inglês John Herschell e do anúncio do daguerreótipo por François Arago, na França, em 1839. São suas as imagens fotográficas mais antigas ainda visíveis conhecidas no mundo inteiro.
Photographie.
s.d.
Tinta ferrogálica sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Érika Beraldo
[Diploma maçônico]
[1832-1833]
Cópia por contato com papel
fotossensibilizado com sais de prata
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Érika Beraldo
“Eu acredito [...] que um dia vamos imprimir pela ação da luz. Todo mundo sabe que a luz descolore objetos, [...]. Se eu fosse químico, talvez eu conhecesse uma substância que colore ou descolore na luz, ou que mude de cor, ou que escureça.”
Hercule Florence
Fim.
ANTOINE HERCULE
ROMUALD FLORENCE (1804–1879),
nascido em Nice, então parte do Ducado de Saboia, foi inventor de um dos primeiros processos fotográficos do
mundo. Desenhista, pintor, tipógrafo, naturalista e fazendeiro, transferiu-se para o Brasil em 1824 e, de 1825
e
1829, integrou a Expedição Langsdorff como ilustrador. Após a viagem, estabeleceu-se em Campinas em 1830, onde
realizou pesquisas pioneiras em fotografia e produziu uma vasta obra gráfica sobre o Brasil do século XIX.
Florence viveu no país até sua morte em Campinas, em 1879, tornando-se uma das figuras centrais da história
cultural e científica brasileira.
Filho de Arnaud Florence e Augustine de Vignallys, nasce Antoine Hercule Romuald Florence em 28 de fevereiro 1804 em Nice (se tornaria parte da França em 1860).
Filho de Arnaud Florence e Augustine de Vignallys, nasce Antoine Hercule Romuald Florence em 28 de fevereiro 1804 em Nice (se tornaria parte da França em 1860).
Mónaco em 1813 (manuscrito “Memorial de Mônaco”) Aquarela sobre papel Archives du Palais de Monaco (Mônaco)
1807
Após o falecimento do pai, a família se muda de Nice para Mônaco, país natal de sua mãe. Em Mônaco, Hercule
passou
sua infância e juventude.
1818
Em Mônaco, trabalha como desenhista e calígrafo.
La Frégate la Marie-Thérèse, au Mouillage
de Montevideo, 1826. Carnet de croquis
personnels de Charles Bazoche
1826
Aguada de nanquim e aquarela sobre papel
Coleção particular
1824
Inspirado pela leitura do Robinson Crusoé de Daniel
Defoe, decidiu embarcar como tripulante na fragata
Marie Thèrese comandada pelo capitão Claude
Charles Marie du Campe de Rosamel. A fragata
aportou no Rio de Janeiro em 1824, um ano e meio
após a declaração da independência brasileira.
Rio de Janeiro
1. Pain de Sucre. 2. Corcovado. 3. Montagne
de Gouveia. (Desenho do álbum Expédition
au Brésil de la mission russe du Ct
Langsdorff), [1825]
Aguada de nanquim sobre papel
Bibliothèque national de France (Paris)
Hercule Florence decidiu ficar no Rio de Janeiro e trabalhou em estabelecimentos comerciais franceses até ler um anúncio publicado em 7 de julho de 1825:
(Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, nº 6, 7 jul 1825, p. 23.)
Foi uma viagem de pesquisa realizada no Brasil do século XIX, organizada por Georg Heinrich von Langsdorff, médico alemão naturalizado russo e cônsul da Rússia no Império do Brasil. Com financiamento do Império Russo, Langsdorff reuniu naturalistas, cartógrafos e artistas para registrar a natureza e a vida social em diferentes regiões do terrritório brasileiro. Na segunda etapa da expedição (1825-1829), contou com Hercule Florence como desenhista, responsável por imagens de paisagens, plantas, animais e do cotidiano.
Costume
Porto Feliz, 1826
Grafite, nanquim, aguada de nanquim,
aquarela e tinta ferrogálica sobre papel
19,8 x 25,5 cm
Coleção Cyrillo Hercules Florence / Instituto Moreira Salles
Na espera pelos preparativos da viagem, Hercule Florence registra os habitantes da região paulista e seus costumes.
A viagem tem início em Porto Feliz e percorre entre os anos de 1826 e 1829 os atuais Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Pará, principalmente através de caminhos fluviais.
Sem título (Família Álvares Machado), s.d.
Nanquim, aguada de nanquim, aquarela e
guache sobre papel
22,0 x 27,6 cm
Coleção Cyrillo Hercules Florence /
Instituto Moreira Salles
Desenhado em Porto Feliz (SP), retrata o casal Cândida e Francisco Alvares Machado Vasconcellos ladeados pela filha Maria Angélica (com quem Hercule se casaria após a Expedição Langsdorff) e o enteado Joaquim Inácio, em uma sala com objetos científicos.
EMBOCADURA DO RIO PARDO (MS)
18 de agosto de 1826
Queimada dos campos, Rio Pardo
s.d.
Aquarela e guache sobre papel
Coleção Cyrillo Hercules Florence / Instituto
Moreira Salles
“Chegamos à embocadura do Rio Pardo, sempre à direita, célebre por sua navegação laboriosa e pela força de sua correnteza, que vamos agora subir; o rio é conhecido igualmente por seus lindos campos que substituem a monotonia das eternas florestas do Tietê e do Paraná, onde podemos sair da estreita barraca da canoa para atravessar campos e colinas."
SANTOS (SP)
4 de setembro de 1825
[Casas velhas de Santos]
[1826]
Aquarela e nanquim sobre papel
Bibliothèque national de France (Paris)
"Santos, cidade de seis mil habitantes, onde vimos apenas um veleiro três-mastros português e algumas embarcações de cabotagem, é, todavia, o primeiro porto da província."
CHAPADA DOS GUIMARÃES (MT)
29 de abril de 1827
3me vue des Rochers de la Chapada.
Environs de Guimarães.
1827
Aguada de nanquim sobre papel
Coleção Arquivo da Academia de Ciências
(São Petersburgo)
"Para pintar o que vi na chapada, me faltam somente as expressões; se as pudesse achar, repetiria vinte vezes a mesma coisa, e os leitores me leriam até o fim sem nunca se cansarem do meu entusiasmo."
SALTO AUGUSTO (MT)
2 de maio de 1828
Chute du Juruenna dite Salto-Augusto. 1ere feuille
1828
Aguada de nanquim sobre papel
Coleção Arquivo da Academia de Ciências
(São Petersburgo)
Foto Claus Meyer
“Basta descer um pouco e tomar a esquerda, para o viajante ir dar a uma plataforma de rochedos, da qual se vê a catarata em suas totais dimensões, que a fazem célebre, assim suas três quedas e os perigos que aí se enfrentam.”
ENCONTRO COM O POVO MUNDURUKU (PA)
1828
Femme et enfant Mandurucús. aux
bas-fonds appellés Tiacoron à la Riv.e
Tapajós
1828
Aquarela sobre papel
Coleção Arquivo da Academia de
Ciências (São Petersburgo)
“Por volta do 6º ou 7º dia de nossa estadia em Tocarisal, um grupo Munduruku passou pela floresta em frente ao nosso acampamento, do outro lado do rio.”
SÃO FLORÊNCIO, RIO JURUENA (AM)
Junho de 1828
Caxoeira de S. Florencio - Acampamento
próximo à Cachoeira de São Florêncio, rio
Juruena e encontro com outras monções.
Detalhe do manuscrito L’Ami des Arts…]
1837-1859
Nanquim e lápis sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
“Segue-se a passagem de cachoeira Misericórdia e, na manhã do dia posterior, a arribada à de São Florêncio, uma das maiores destes sítios. Cheia de mato, uma ilha divide-a em dois braços; à jusante, termina-a bela praia, onde comodamente estabelecemos parada.”
ITAITUBA (PA)
13 de junho de 1828
Arrivée à Itaituba [Detalhe do manuscrito
L’Ami des Arts…]
1837-1859
Lápis e tinta ferrogálica sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
"O distrito chama-se Itaituba, sua população, pouco numerosa, é composta de portugueses e seus escravos, por brasileiros e maués, que são os mais numerosos."
SANTARÉM (PA)
1º de julho de 1828
Vue de Santarem sur le Tapajós, prise du
coté de l'Ouest
1828
Aquarela sobre papel
Coleção Arquivo da Academia de
Ciências (São Petersburgo)
“Bela cidade é Santarém, situada na confluência do Tapajós com o Amazonas. Localiza-se à margem oriental do primeiro desses rios, em terreno plano, com suave inclinação para a água.”
BRAÇO DO RIO AMAZONAS (PA)
Setembro de 1828
Un bras de l’Amazone [Detalhe do
manuscrito L’Ami des Arts…]
1837-1859
Lápis e tinta ferrogálica sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
“Para explicar como no Amazonas se pode ver água a perder de vista, assim como no mar, direi que às vezes nos encontramos em meio a uma extensão de água onde não há ilhas; e como as margens já distantes são formadas apenas por uma fileira de árvores (...).”
BELÉM (PA)
16 de setembro de 1828
[Detalhe do manuscrito L’Ami des Arts…]
1837-1859
Lápis e tinta ferrogálica sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
“Bonita é a cidade. […] Uns trinta navios mercantes ingleses, norte-americanos, portugueses e brasileiros, um francês, um sardo, dois brigues de guerra, da marinha brasileira, e um francês […] estão fundeados na baía.”
DE BELÉM (PA) AO RIO DE JANEIRO (RJ)
13 de março de 1829
[Detalhe do manuscrito L’Ami des Arts…]
1837-1859
Lápis e tinta ferrogálica sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
“Dois dias depois de termos perdido de vista a terra, continuávamos a tirar do mar água doce, para saciar a sede. Decorridos quinze dias, quase naufragamos, por imperícia do capitão, num escolhos da costa maranhense. […] Felizmente, ao cabo de 45 dias de travessia, arribamos ao Rio de Janeiro.”
CAMPINAS (SP)
1829
Sem título [Carolina amamentando no
atelier de Florence, tendo a prensa
poligráfica ao lado]
s.d.
Aquarela, nanquim, guache e tinta
ferrogálica sobre papel
21,0 x 27,3 cm
Coleção Cyrillo Hercules Florence /
Instituto Moreira Salles
Fim da Expedição. Estabelece-se em Campinas (então denominada Vila de São Carlos), onde residiu até os 75 anos, falecendo em 1879.
Florence registrou em desenhos e aquarelas paisagens, rios, animais, plantas e costumes observados no percurso da expedição. Esse trabalho sistemático de documentação o fez refletir sobre a dificuldade de reproduzir imagens em grande número e com mais fidelidade e cores do que o desenho permitia. Isso o levou a buscar novas soluções para a impressão e a reprodução visual.
“As florestas estão repletas de açaí, uma linda palmeira pequena que produz cachos de cocos minúsculos dos quais se faz uma bebida deliciosa.”
Hercule Florence
Com múltiplos interesses e habilidades, foi inventor, pintor, desenhista, naturalista, tipógrafo, humanista e professor. Vamos conhecer algumas de suas invenções:
ZOOFONIA
1829
Systéme de l'art d'ecrire la voix des animaux [Página do livro Recherches sur la voix des animaux, ou Essai d’un nouveau sujet d'études, offert aux amis de la nature, de Hercule Florence (Rio de Janeiro: Typographia de R. Ogier, 1831)]
Encantado com a sinfonia da natureza brasileira, Florence percebeu que cada animal tinha sua própria “voz”: sons diferentes para acasalamento, defesa ou alerta, distintos entre machos e fêmeas. Fascinado, criou a Zoofonia, um método inédito de registrar esses sons por meio da notação musical — substituindo o uso de onomatopeias para imitar o som dos animais.
“Seria necessário ter viajado como eu, por mais de três anos através dos vastos territórios do Brasil, para saber como é impressionante ouvir uma multidão de animais, com sons tão diferentes um do outro."
POLIGRAFIA
1831
[Polygraphie]
s.d.
Bico de pena e lápis sobre papel
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Patricia De Filippi e Millard Schisler
A dificuldade para imprimir as partituras da Zoofonia instigou Florence a criar técnicas gráficas. Em 1830 idealizou a Poligrafia, que dispensava as pesadas matrizes em negativo e prensas da gravura tradicional e, acima de tudo, permitia a impressão simultânea de várias cores.
NÓRIA HIDROSTÁTICA
1835
Vue geómétrique et oblique, de la Noria
hydrostatique
c.1835-1838
Grafite, nanquim, aguada de nanquim,
aquarela e tinta ferrogálica sobre papel
46,4 x 34,5 cm
Instituto Moreira Salles / Coleção Cyrillo
Hercules Florence
Homem prático, Florence dedicou-se à solução de problemas cotidianos, projetando nórias hidráulicas para bombeamento contínuo de água, teares para produção de chapéus e veículos a tração animal para as estradas paulistas.
PAPEL-MOEDA
1838
Papel inimitável: impressão simultânea de
todas as cores
1870
Impressão poligráfica sobre papel
Instituto Moreira Salles / Coleção Cyrillo
Herculkes Florence
O Papel Inimitável utilizava a impressão poligráfica e simultânea de todas as cores para criar padrões irrepetíveis que poderiam ser utilizados em papel-moeda, evitando sua falsificação.
ATLAS DOS CÉUS
1830-1844
[Estudo de uma queimada de roça ao
meio-dia]
1832
Aquarela, nanquim, aguada de nanquim e
tinta ferrogálica sobre papel
Coleção Cyrillo Hercules Florence /
Instituto Moreira Salles (Rio de Janeiro)
Em seus Etudes de ciels, à l'usage des jeunes paysagistes , ou Atlas ou Teatro Pittoresco-Céleste, Florence reuniu “os mais lindos, os mais brilhantes e os mais variados” céus, nuvens, formas, cores e efeitos causados por condições climáticas, horas do dia e atividades humanas (como as queimadas) para servir aos jovens artistas como referência para suas composições.
REGISTRAR A PASSAGEM DO TEMPO,
A LUZ E O MOVIMENTO EM PINTURAS
1832
Sem título [Cena de acampamento ao
luar]
s.d.
Grafite, nanquim e aquarela sobre papel
31,6 x 43,3 cm
Instituto Moreira Salles
No campo da pintura, Florence estudou técnicas óticas e cinéticas que pudessem retratar a natureza dinâmica da luz, das nuvens, da fumaça, da fugacidade e da passagem do tempo. Suas primeiras experiências foram os tableaux transparents, onde o brilho de uma vela percebido através de pequenos furos no papel mimetizava o cintilar das estrelas.
ORDEM PALMIANA
1852
[Página 60 do manuscrito Troisième livre
de premiers matériaux]
1840-1860
Tinta ferrogálica sobre papel
23,3 x 17,9 cm (fechado)
Coleção Instituto Hercule Florence (São
Paulo)
Foto Heitor Florence
Impressionado com as palmeiras vistas durante a
Expedição Langsdorff, criou um estilo arquitetônico
inspirado no buriti, babaçu (guaguaçú), carandá, bocaiúva
(bocajuva) e outras espécies.
“Uma palmeira é um pequeno templo onde se vê a coluna, o pedestal, o capitel, a abóbada
e a cúpula...”.
Usando câmeras escuras e papéis fotossensibilizados com sais de ouro ou prata, Florence criou as primeiras imagens fotográficas das Américas.
Desenvolveu também um suporte que permitia sensibilizar várias matrizes ao mesmo tempo. Assim, produzia cópias fotográficas por contato, em positivo, fixadas com urina — e que permanecem visíveis até hoje.
Photographie ou Imprimerie à la lumière,
22 8bre 1833. (manuscrito)
1833
Tinta metaloácida sobre papel
Coleção Cyrillo Hercules Florence /
Instituto Moreira Salles (Rio de Janeiro)
Cunhou a palavra photographie (escrever com a luz) em 1833. Isso aconteceu seis anos antes da utilização do termo pelo inglês John Herschell e do anúncio do daguerreótipo por François Arago, na França, em 1839. São suas as imagens fotográficas mais antigas ainda visíveis conhecidas no mundo inteiro.
“Eu acredito [...] que um dia vamos imprimir pela ação da luz. Todo mundo sabe que a luz descolore objetos, [...]. Se eu fosse químico, talvez eu conhecesse uma substância que colore ou descolore na luz, ou que mude de cor, ou que escureça.”
Hercule Florence
Fim.
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