Notas & Reflexões

Carolina Krug Florence: a alemã que dedicou a vida à educação feminina no séc XIX

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Segunda esposa de Hercule Florence, Carolina fundou em 1863, o Colégio Florence, voltado para a educação feminina e influenciado pelo método Pestalozzi

Carolina Krug Florence nasceu em Kassel, cidade no sul da Alemanha que hoje sedia uma das mais importantes mostras de arte contemporânea, em 21 de março de 1828. Filha de um fabricante de mosaicos artesanais em madeira, João Henrique Krug e Elizabeth Debus Krug, valorizava a educação e tinha por ideal ser professora.

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Retrato de Carolina Krug Florence

Carolina iniciou seus estudos aos seis anos e até os quatorze frequentou a Escola Ruppel, na Alemanha. Mudou-se para Suíça, em La Servette, região de Genebra, para frequentar o Instituto de Madame Niederer, onde teve a oportunidade de conhecer melhor o método de Pestalozzi (já considerado, na época, um grande pedagogo moderno) e também vivenciá-lo na prática. A direção que Madame Niederer imprimia ao instituto seria fundamental para a forma como Carolina conduziria a sua instituição, como descreveu Arilda Inês Miranda Ribeiro, no seu livro A educação feminina durante o século XIX – O Colégio Florence de Campinas 1863 – 1889, 2a edição de 2006, da Coleção Campiniana, do Centro de Memória da Unicamp, cuja impressão foi financiada por diversos membros da família Florence e pode ser obtida em PDF nosso site. Em 1848, Carolina volta para Alemanha e passa a lecionar em uma escola para moças.

Em 1852, os pais da educadora decidem juntar-se ao filho mais velho, Jorge Krug, líder maçom que teria decisiva participação na fundação do Colégio Culto à Ciência, em 1869, estabelecido na cidade de Campinas desde 1846.

Com a família, Carolina embarca então para o Brasil e após dois anos de sua chegada casa-se com um amigo de seu irmão mais velho. Era ele Hercule Florence (Nice, França 1804 - Campinas, SP 1879), viúvo de Maria Angélica Machado Florence, com quem se casara em 1830 e com quem gerou treze filhos, dos quais apenas seis chegaram à idade adulta.

Após o casamento, o inventor e a educadora foram viver na Fazenda Soledade. Ao lado de Hercule, Carolina assumiu os filhos do primeiro casamento do naturalista, e teve ainda sete filhos com ele: Ataliba, Jorge, Henrique, Augusta, Guilherme, Paulo e Isabel.

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Da esquerda para a direita: Giorgetti (professor do Colégio Florence), Augusta Florence (filha de Hercule e Carolina), Olivia Florence (neta de Hercule e Carolina), Olivia Florence (esposa de Ataliba Florence), Carolina Krug Florence (sentada), Ataliba Florence (filho de Hercule e Carolina) e Isabel Florence (filha de Hercule e Carolina).

Em 1863 a família decide mudar-se para a área urbana de Campinas e Carolina coloca em prática seu antigo desejo: criar um estabelecimento no Brasil, seguindo o modelo que havia vivenciado na Europa.

A vontade de Carolina em criar um estabelecimento no Brasil, nos moldes em que havia frequentado na Europa, a acompanhava desde os tempos em que veio para a América. Passados nove anos do casamento com Hercule e apoiada por ele, a educadora funda em Campinas, em 3 de novembro de 1863, o Colégio Florence, voltado para a educação feminina. O prédio da instituição, cedido pelo irmão, Jorge Krug, estava localizado na Rua da Flores, 24 e 26 (atualmente Rua José Paulino).

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Colégio Florence, Campinas. Autoria Desconhecida, Óleo sobre tela.
Acervo Museu Paulista

Documentos da época evidenciam a influência do método Pestalozzi na instituição. Cartas de pais, alunas e professores mostram que a família, por exemplo, era o centro da educação. A relação que se criava no colégio, entre os diversos membros que o compunham, era de respeito mútuo, visando a cooperação de todos.

De formação protestante, Carolina Florence nunca estimulou o proselitismo no seu Colégio. Pelo contrário, incentivou o ecumenismo religioso e cultural no mais amplo sentido do termo.

A vida em comum entre professores e alunas se objetivava nas atividades do cotidiano. Ao contrário dos colégios religiosos do mesmo período, em que as alunas tinham, na maioria das vezes, apenas freiras para ensiná-las, no Colégio Florence o contato com o mestre do sexo masculino favorecia uma educação mais voltada para a realidade social a que estavam inseridas.

Outro aspecto pedagógico que o diferenciava das instituições particulares religiosas era o de ser um espaço de aprendizagem da vida cultural. Contrariamente aos internatos religiosos, onde o estímulo à educação se encontrava na assimilação e dogmas, rezas, abnegação, santificação da mulher, o Colégio Florence, por ter sido laico, tratava suas alunas como mulheres para viverem no espaço privado e público.

Além disso, Carolina procurava absorver dos novos métodos que foram surgindo, contribuições para a melhoria do ensino. Permitia assim, que o corpo docente da instituição elaborasse seus programas de ensino livremente. A abertura às ideias que chegavam com novos professores sempre foi bem recebida e o papel do professor implicava numa maior flexibilidade do colégio.

Desde o início, Carolina Florence procurou ter em seu estabelecimento professores qualificados, tanto os nacionais quanto os estrangeiros. Entre os docentes que passaram por lá destacam-se Hercule Florence, Rangel Pestana, João Kopke, Emílio Giorgetti, Armelina Lamaneres, Leonor Gomes, Ana Krug Kupfer, Augusta e Isabel Florence, entre outros.

No ano de 1889, com o início da epidemia de febre amarela que deixou a cidade de Campinas em pânico, Carolina foi prudente. Para evitar o pior, ela fechou temporariamente as portas do Colégio, e mandou as alunas de volta às famílias, evitando que corressem o risco da doença que dizimou cerca de dois terços da população em um ano. A atitude foi elogiada pela imprensa e serviu de exemplo para que outras instituições tomassem as mesmas medidas.

“Por causa da febre amarella que se tem dado em Campinas, diversos casos, a exma. sra. d. Carolina Florence, diretora do acreditado Colégio Florence, resolveu fechar por algum tempo o referido colégio, fazendo recolher as alumnas a casa de seus paes. Esta prudente deliberação é digna de applausos e demonstra o cuidado que a exma. diretora possue pela saude de suas alumnas.” (O Diário de Campinas, 08/03/1889).

Em agosto de 1989 o Colégio Florence reabre suas portas, mas agora em Jundiaí, cidade onde o Colégio Florence, em suas novas instalações, continuou a funcionar nos moldes idealizado pela sua fundadora até 1928, quando foi transformado em Escola Normal Livre.

Após 33 anos dedicando-se a educação, Carolina Florence resolveu afastar-se da direção, deixando o cargo nas mãos das professoras Hermínia Michaelis, Cecília Almeida e Augusta Florence, sua filha.

Em 1907 a educadora retornou a Europa para tratar de sua saúde. Carolina sofria, já há alguns anos de catarata. Agradando-lhe o clima da Itália, decide então se juntar a sua filha Augusta e seu marido, o músico Emílio Giorgetti, em Florença.

Em abril de 1913, com 85 anos, Carolina Florence faleceu, sendo enterrada no cemitério protestante de Agli Alloni, em Florença.


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