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Reflexões

O Joaquinzinho da Botica

terça-feira, 4 de maio de 2021

Em artigo de Jorge Alves de Lima, conheça mais sobre a história do boticário que ajudou Hercule Florence em suas experiências fotoquímicas que dão origem a imagens batizadas de fotografia

Por Jorge Alves de Lima*

Campinas, no início de 1890, apesar de alguns casos de febre amarela, estava preocupada com o destino de um prédio de propriedade de Joaquim Correia de Mello – apelidado de Joaquinzinho da Botica – falecido em 1877.

+ Leia também: Hercule Florence: pioneiro da fotografia no Brasil

Joaquim Correia de Mello nasceu em Campinas, no ano de 1816. Em 1834, foi estudar Farmácia no Rio de Janeiro, onde se formou com distinção e louvor, em 1836, mercê de seu talento e aplicação. Já no ano de 1832, quando ajudante de farmácia, o Joaquinzinho da Botica, como era carinhosamente conhecido pela população, colaborou diretamente com seu grande amigo Hercules Florence, fornecendo-lhe informações sobre a substância Nitrato de Prata, elemento químico necessário para que nosso notável francês, aqui residente, criasse a fotografia. Além de farmacêutico competente, dedicou-se a estudar botânica, primeiramente visando às plantas medicinais indígenas e, com isso, tornou-se mais conhecido na Europa do que no Brasil, correspondendo-se com notáveis botânicos europeus. Em 1868, ele conseguiu introduzir 21 espécies de plantas e flores nos charmosos Jardins de Paris.


A França, agradecida, outorgou-lhe uma distinção especial da renomada Société Imperiale e Centrale D’ Horticulture de France”

Nesse mesmo ano de 1868, recebeu do Governo Imperial Russo uma medalha de prata por benefícios prestados ao jardim de São Petersburgo. Joaquim Correia de Mello, logo no ano seguinte, em 1869, teve o reconhecimento alicerçado no Exterior por sua eleição, em voto direto, para membro estrangeiro da “Royal Society of Botanics” de Edimburgo. Porém, não parou por aí o reconhecimento da comunidade científica mundial ao nosso “Quinzinho da Botica”. Em 1870, foi eleito membro estrangeiro da respeitável instituição “British Pharmaceutical  Conference”.

Joaquim Correia de Mello, mais conhecido no exterior do que no Brasil, possuía, no seu nobre caráter, a beleza de uma natureza humilde e modesta. Em seus últimos anos de vida, por empenho pessoal do Dr. Francisco Rangel Pestana, então diretor do jornal “A província de São Paulo” (atual Estado de S. Paulo), passou a escrever, na seção científica, sobre suas pesquisas consagradas na Europa.

O prédio que havia sido de Joaquim Correia de Mello passou a abrigar uma escola localizada na rua Bernardino de Campos, quase esquina da Praça Correia de Mello, no largo do Mercado Central. No auge da epidemia de febre amarela, no ano de 1889, o prédio da escola transformou-se em enfermaria para abrigar os enfermos da Serpente Assassina.

O Diário de Campinas, em sua edição do dia 8 de janeiro de 1890, publicou que Joaquim Correia de Mello, um homem de ciência, ilustrado e modesto, um botânico que tanto havia contribuído para que a flora brasileira fosse conhecida na Europa, fora surpreendido pela morte. Campinas, extremamente compungida, lamentou a perda do seu filho dileto.  

Os admiradores de Joaquim Correia de Mello, logo depois da sua morte, pretendiam erigir um monumento, para perpetuar sua memória e a gratidão popular da cidade.  Todavia, os promotores da ideia entenderam, com muito critério, que o melhor meio de prestar homenagem a Correia de Mello seria abrir uma escola para os filhos do povo. A ideia foi muito bem recebida e, de dentro de pouco tempo, a escola surgiu. Fundou-se uma associação que tomou o compromisso de manter as aulas. O líder da associação, o coronel Joaquim Quirino, enquanto viveu, sustentou o funcionamento da escola durante muitos anos. Depois disso, a Associação resolveu entregar o prédio à Câmara Municipal, com a condição de manter ali a escola popular.

O prédio dessa escola foi demolido nos anos 80 do século XX.  Atualmente, nesse local – Rua Bernardino de Campos – foi erguido um edifício.

Neste solo sagrado de Campinas, em frente à Praça Correia de Mello (onde se localiza hoje um terminal de ônibus), a escola formou várias gerações de homens ilustres, dentre os quais, distintos leitores e leitoras do Correio Popular, o professor Rubem Costa, emérito educador, ilustrado advogado, escritor e jornalista, e nosso companheiro na Academia Campinense de Letras.

A escola Correia de Mello existe até hoje, e é uma unidade de ensino fundamental da rede escolar da Prefeitura Municipal de Campinas, localizada na Rua Coaciara nº 600, no parque Dom Pedro II.

O sonho de Joaquim Correia de Mello e do seu leal amigo Coronel Joaquim Quirino dos Santos prevaleceu no correr dos tempos!

Campinas perpetuou o nome do Coronel Joaquim Quirino dos Santos atribuindo seu nome à principal rua do elegante bairro do Cambuí: a Rua Coronel Quirino!

*Jorge Alves de Lima é historiador, escritor e Presidente da Academia Campinense de Letras   


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