Notas & Reflexões

Uma vida criativa: Carolina Florence

segunda-feira, 21 de março de 2022

Há 194 anos nascia Carolina Florence, segunda esposa de Hercule, fundadora e idealizadora do Colégio Florence, dedicado à educação feminina. Em reflexão escrita especialmente para o IHF, Cecilia Prada discorre sobre a questão da educação da mulher no séc. XIX e sobre vida e obra da educadora

Por Cecilia Prada*   

      Nascida em Cassel, Alemanha, em 21 de março de 1828, Carolina Krug pertencia a uma família de classe média, mas evoluída e culta. Seu pai, Johann Heinrich Krug, era um artesão renomado, possuía uma fábrica de mosaicos de madeira usados nos assoalhos de palácios e castelos. Toda a família era ligada a assuntos culturais e foi dada a todos os filhos, meninos e meninas, a mesma educação básica que lhes permitiu mais tarde salientarem-se nas diversas profissões escolhidas. Essa tendência à “normalização” da educação feminina, era característica europeia, e principalmente alemã, já na época da infância de Carolina – ao contrário do que acontecia nos países mais novos, como o Brasil. Onde somente um século mais tarde, em 1960, com a Lei de Diretrizes e Bases, foram “normalizadas” as regras diferenciais existentes para os dois sexos – herança que nos ficara, e que sob diferentes aspectos pode-se dizer que persiste até hoje, do ensino particular religioso, instaurado e quase obrigatório no país desde 1859, principalmente para as mulheres.  

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      Carolina demonstrou logo extraordinária capacidade intelectual e um interesse acentuado pela Literatura e pela História Universal. Mostrou determinação na escolha profissional, decidida a dedicar-se totalmente ao magistério. Foi estimulada pelos pais, que a autorizaram a empreender, sozinha, uma penosa e extensa viagem feita em parte por diligência, em parte por ferrovia, até a cidade de Genebra, na Suíça. Onde se matricularia no Instituto La Servette, dirigido por Madame Niederer, esposa de um antigo amigo e colaborador de Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), considerado como o precursor da pedagogia moderna, que somente no início do século XX, com a Escola Nova, teria seu pleno desenvolvimento.

Retrato de Carolina Florence 

      Até os 24 anos, Carolina teve amplas possibilidades profissionais, tanto na cidade natal como em outras cidades.  Em Altona, cidade suíça, lecionou no Instituto Biernatriski durante três anos e chegaram a lhe oferecer o cargo de diretora da instituição. Não pôde aceitá-lo porque, muito ligada à família (pais e mais quatro irmãos), juntou-se a ela quando em 1852, devido a acirrada perseguição política sofrida pelo pai por ser “liberal”, resolveram todos emigrar para o Brasil. O filho mais velho, Jorge Krug, já viera por conta própria em 1846 e instalara-se em Campinas, como farmacêutico.  Fizera fortuna razoável e gozava de excelente reputação na vida social e política do país – era maçon (grau 33) e durante muito tempo exerceu o cargo de Vice-Cônsul da Suíça em toda a Província de São Paulo.  

      Dois anos após sua chegada a Campinas, Carolina casou-se com o viúvo Hercule Florence – a aproximação dera-se por intermédio do seu irmão Jorge, que se tornara amigo do inventor e artista. O primeiro casamento de Hercule terminara em tragédia: sua primeira mulher, Maria Angélica de Vasconcellos tivera 13 filhos em 20 anos, e falecera aos 36 anos em resultado do parto do décimo-terceiro, também morto. O legado de oito filhos vivos – o menor com 7 anos e o maior com 23 - foi colocado sob a incumbência da madrasta, que os recebeu e criou com muito amor, somando-os à sua própria e consciente produção de mais sete crianças.

Da esquerda para a direita: Giorgetti (professor do Colégio Florence), Augusta Florence (filha de Hercule e Carolina), Olivia Florence (neta de Hercule e Carolina), Olivia Florence (esposa de Ataliba Florence), Carolina Krug Florence (sentada), Ataliba Florence (filho de Hercule e Carolina) e Isabel Florence (filha de Hercule e Carolina).

      Foi uma união madura e harmoniosa, pois, como diz a biógrafa de Carolina, Arilda Ines Miranda Ribeiro, “resultou muito mais numa ligação de respeito e companheirismo, do que um sexo subjugando o outro, coisa que comumente ocorria no Império Brasileiro”. Durante quase nove anos a grande família viu-se obrigada a viver recolhidamente em uma fazenda, Soledade, situada na proximidade da cidade de Laranjal, comprada com a herança materna dos filhos do primeiro casamento. Hercule e Carolina, ambos de grande tradição e aspiração intelectual, foram obrigados a encarar a realidade econômica: tornaram-se fazendeiros, passando rapidamente, como acontecia com os demais da área, da produção do açúcar para a do café.  

      Empenharam-se nessa tarefa com grande concentração, obtendo ótimos resultados econômicos. Mas Carolina esteve sempre liderando os rumos da família, no sentido de ver quais as necessidades dos filhos, conforme iam crescendo. Assim, em 1863 resolveu que voltariam a residir em Campinas, para que eles pudessem estudar. E também porque, com o desenvolvimento da lavoura cafeeira, os fazendeiros tinham necessidade também de ligações comerciais com exportadores e associações e dependiam, para colocação de seus produtos, de uma rede social e política estável.

      Esse é o momento em que Carolina emerge da personalidade tradicional de mãe-esposa em que estivera inserida, para retomar sua antiga aspiração – a de fundar no Brasil um estabelecimento de ensino semelhante àquele “avançado” em que se formara, na Suíça, e que se destinasse exclusivamente à educação feminina. O que fez com o auxílio do marido e do irmão Jorge, fundando em 3 de novembro de 1863 o Colégio Florence.

      A iniciativa melhor que se poderia ter, tanto no campo cultural como no econômico, porque aquele era o produto que não havia no Brasil desde os tempos da fundação até meados do século XIX: estabelecimentos dedicados à instrução e educação de mulheres. Numerosos viajantes estrangeiros que percorreram  o interior do país durante o período colonial e no tempo do Primeiro Império, descreveram a situação de atraso e ignorância das mulheres, mesmo nas famílias abastadas – mantidas em um regime parecido com o do serralho árabe, até analfabetas, já que de nada lhes serviria a alfabetização – “seria para escrever para namorados?”–, votadas à  tarefa única que lhes competia, a produção e criação em massa de cidadãos de preferência do sexo masculino, para o progresso do país e a glória da Santa Igreja Católica.

      No entanto, com a lenta passagem da sociedade agrária para a industrial, nossos patriarcas começaram a sentir a diferença de grau civilizatório que existia entre as mulheres elegantes europeias, e suas mulheres “caipirôas”, que em nada podiam contribuir para o prestígio social da família. Nos círculos mais avançados, universitários, acadêmicos, políticos, desde o final do século XVIII levantava-se um verdadeiro clamor pela “educação das mulheres”. Mas deveria ser bem entendido que não se trataria nunca de uma educação igual à dos homens. Nossas patrícias deviam ser preparadas para ser agradáveis, sofisticados “anjos do lar”, alfabetizadas, lustradas, donas de belas maneiras, falando francês, é claro, tocando piano, capazes no máximo de fazer lindos bordados, copiar pinturas, declamar versos românticos, e principalmente lidar com os escravos, mais tarde com os empregados domésticos – para que o ambiente se tornasse mais agradável  para seus consortes e eles preferissem passar mais tempo em casa do que nos luxuosos bordéis que, na mesma época, iam também se alastrando pelo país.

      Mesmo reconhecendo a capacidade intelectual e o preparo de sua Carolina, Hercule também partilhava essa ideia de limitação cultural feminina. Como dizia ainda na carta de 1854 à sua genitora, elogiando a esposa: “...Fui absorvido por suas qualidades, seu talento e suas maneiras distintas. Tendo feito sua educação durante três anos em um Instituto de jovens moças em Genebra, ela adquiriu um perfeito conhecimento de francês. Ela sabe a história, a geografia, os elementos de matemática, a pintura e a música. Todas as ocupações de seu sexo.”

      A partir de meados do século XIX já se começava a pensar na necessidade de profissionalização para as mulheres. Mas não somente na oligarquia e na intelectualidade a ela ligada, aferradas às tradições conservadoras, em todas as classes sociais levantava-se também um clamor decidido contra a possibilidade de equiparação cultural entre homens e mulheres. Em 1851 o Barão do Rio Branco verberava nos jornais que não se deveria reviver no país as funestas tentativas de grupos feministas estrangeiros, porque a educação feminina “deveria constituir-se apenas de prendas domésticas e outras disciplinas que pudessem formar damas prendadas e boas donas-de-casa”.  Advertia também que não se poderia aceitar a concessão de direitos políticos às mulheres:”....Deus nos livre de um mulherio eivado dessa lepra. Onde iríamos parar com essa república de publicistas de saias, quem iria resistir à sedução dessas varoas”?

      Para citar somente mais um exemplo entre centenas, podemos lembrar o que dizia José Veríssimo, escritor e prestigioso crítico literário, em seu livro  A educação nacional. Aceitava e mesmo recomendava a educação feminina, para que as mulheres pudessem ser boas mães, mas lembrava que “dado serem as mulheres menos inteligentes do que os homens, elas não devem receber instrução em matemática e outras disciplinas científicas.”

      Para remediar a lacuna, foram importadas em 1859 as freiras francesas da Congregação de São José de Chamberry, que fundaram em Itu o Colégio Nossa Senhora do Patrocínio – protótipo de internatos religiosos de várias ordens que se espalharam pelo país tendo em vista uma finalidade precípua: seriam viveiros de moças cristãs, cultivadas expressamente puras e religiosas  para fornecimento de mercadoria fresca na hora em que os rapazes de boa família enfim se conformassem em casar com moças de sua classe para formar família e se solidificarem em varões da “moral e da sociedade” – depois de aproveitarem a mocidade e provarem abundantemente sua masculinidade nos cabarés e bordéis de luxo. Aonde iam levados pelos próprios pais e mestres, sob o olhar distraído e cúmplice das autoridades. E da própria Santa Madre Igreja – naquela época de ferrenho ultramontanismo romano.

      Na segunda metade do século XIX, a cidade de Campinas se tornara um importante centro comercial, político e cultural. Debatiam-se diariamente pelos jornais as questões relativas ao sistema republicano, ao abolicionismo, à educação laica, ao ensino misto, ao livre pensamento. Antes da fundação do Colégio Florence, outras instituições de pequeno porte haviam tentado, sem sucesso, impor novos rumos à educação feminina.  Em âmbito nacional, contava-se, em relação a esse tema, pelo menos um grande fracasso – em 1834, a primeira feminista brasileira, a pernambucana Nísia Floresta, tentara manter no Rio de Janeiro, sem sucesso, o Colégio Augusto, uma escola para meninas que substituia bordados e rezas por currículos científicos, ensino de línguas e literatura.  Foi perseguida duramente e resolveu retirar-se para sempre do país. Foi para a França, instalou-se lá, sempre produzindo e trabalhando, escreveu e publicou vários livros, tornou-se amiga de personalidades como Chateaubriand e Augusto Comte. Na cidade de São Paulo, fracasso conhecido e lamentado foi o da escola laica fundada em 1876 pelo casal Rangel Pestana, hostilizado pela população.

      O Colégio Florence, de Campinas, pôde enfrentar melhor as circunstâncias adversas e resistir aos setores conservadores. Contava com o apoio da maçonaria e das famílias Krug e Florence, bem como de outras personalidades locais. Seu esteio, porém, foi a dedicação total, e a competência profissional demonstrada por Carolina Florence. A partir daquele momento de sua vida, o casal adaptou-se a um modo de viver bastante diferente dos períodos anteriores. Carolina assumiu integralmente suas funções de professora e diretora, fazendo questão de escolher pessoalmente, após severo escrutínio, os membros do corpo docente. Para isso resolveu viajar várias vezes à Europa, para escolher professoras alemãs, francesas, inglesas. O mesmo empenho tinha na escolha do corpo discente. Seu colégio abrigava poucas meninas, sempre de alta sociedade, dispostas por sua vez a estudar conscientemente, a exercer uma profissão – em suma, a instituição foi focada desde o início na revalorização da mulher como pessoa. Na base do que estabelecera, bem antes, o mestre Pestalozzi – que não via a escola como um local onde apenas é passado um grande cabedal de informações culturais aos alunos. Mas sim como um local privilegiado de formação individual, baseada na afeição entre alunos e professores, no estabelecimento de vínculos permanentes que os levem, juntos, à procura do saber e à prática de boas ações, por meio de conhecimentos baseados não em abstrações e ideologias, mas sim em fatos e práticas vivenciais importantes.

      Apesar de ser cristã (de denominação presbiteriana), e de cultivar sentimentos religiosos, Carolina nunca impôs, nas aulas de seu colégio, o ensino obrigatório e a prática de rituais de qualquer espécie. Não deixou nunca que preceitos religiosos substituíssem valores de moral laica, remanescentes dos movimentos iluministas europeus, prezando sobretudo a liberdade de expressão. Assim como seu inspirador Pestalozzi reuniu em torno de si, na escola mantida em Yverdon durante vinte anos, um grupo de destacados intelectuais da época – entre eles Talleyrand, Madame de Staël, Allan Kardec, Froebel – o casal Florence também se manteve sempre ligado com as mais destacadas personalidades do campo da literatura, das artes, da educação, e no Colegio Florence fizeram conferências ou ensinaram regularmente professores como João Kopke, Rangel Pestana e Julio Ribeiro.

      Durante as viagens de Carolina, Hercule substitui-a na direção do colégio, organizando os cursos, ensinando desenho e cuidando da parte financeira. Ao contrário do que acontecia no primeiro casamento, em que se deixava viver, somente, não se preocupando muito com o que os outros queriam ou faziam, na segunda união preocupava-se muito com a mulher, sensibilizava-se “com o trabalho demasiado”, sentia-se obrigado a ajudá-la, dedicando-se com mais empenho às suas transações com café, para que ela dispusesse de mais dinheiro para a sua instituição. Mas também, notam seus biógrafos, esse período de sua vida caracterizou-se pela retração de sua criatividade, tanto no campo das ciências como no das artes. Revelava uma certa depressão, e adoeceu logo, nada mais criando até a morte.

      Permanecem ambos, porém, assim como permanece a memória da primeira esposa, Maria Angélica, no verdadeiro culto mantido por todos os seus descendentes tanto do lado Krug como do lado Álvares Machado, numerosos e espalhados pelo Brasil a fora – uma plêiade de cidadãos operosos, destacados em vários campos como profissionais excelentes, e também como cultores das artes e engajados em atividades de filantropia. 

      O Colégio Florence conseguiu manter-se durante 25 anos ininterruptos em Campinas, – de 1863 até o início de 1889, quando, devido à súbita irrupção de uma epidemia de febre amarela, teve de ser fechado e transferido para a vizinha cidade de Jundiaí. Onde funcionou até 1928, sendo então incorporado à Escola Normal daquela cidade.  Em 1946 foi transferido para o governo do Estado, como ginásio e escola normal. Em 1957, descendentes da família Florence inauguraram na cidade de São Paulo o Instituto de Educação Florence, que funcionou até meados dos anos 1980 - registrando assim nos anais históricos todas as etapas da instituição de origem campineira que contribuiu singularmente para a elevação do nível de educação das mulheres brasileiras.

 

* Cecilia Prada (Bragança Paulista, São Paulo, 1929) é jornalista, ficcionista, dramaturga, tradutora, crítica de literatura e teatro. Em 1951, licencia-se em Letras Neolatinas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. No mesmo ano, conclui a graduação em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero.


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