Leia a entrevista da pesquisadora concedida ao IHF
Maria Inez Turazzi é historiadora e doutora em Arquitetura e Urbanismo. Pesquisadora associada dos Laboratórios de História Oral e Imagem e de História Econômico-Social da Universidade Federal Fluminense, é membro do Comitê Brasileiro de História da Arte e do Conselho Internacional de Museus – Icom/Brasil. É também autora de diversos livros, entre estes, O Oriental-Hydrographe e a Fotografia (Centro de Fotografia de Montevidéu, 2019), além de artigos sobre artes visuais, patrimônio cultural e história do Rio de Janeiro.
A pesquisadora participou, em 2023, do Seminário Internacional Cento e Noventa Anos dos Experimentos Fotográficos de Hercule Florence, evento realizado pelo IHF em parceria com o Instituto Moreira Salles.
Sobre o artista-inventor, Maria Inez escreveu dois artigos, reproduzidos aqui no site do IHF: Hercule Florence e a “arte de inventar”; as mobilizações da memória (Photographica, 2025) e O ‘homem de invenções’ e as recompensas nacionais’: Notas sobre H. Florence e L.J.M. Daguerre (Anais do Museu Paulista, 2008).
Na entrevista concedida ao IHF, ela comenta sobre os referidos artigos, suas pesquisas sobre a história da fotografia no Brasil e o processo de reconhecimento de Hercule Florence como um dos participantes dessa trajetória. Leia a seguir:
Em 2026, a França celebrará os 200 anos da invenção da fotografia por Niépce. A revista francesa Photographica (abril, 2025) publicou, em edição comemorativa à data, o artigo de sua autoria Hercule Florence e “a arte de inventar”. Qual é a importância de destacar o legado de Florence nessa celebração?
As comemorações pelo bicentenário da fotografia foram propostas pelo Ministério da Cultura da França com uma série de iniciativas culturais e acadêmicas previstas para 2026 e 2027 (ver https://www.culture.gouv.fr/thematiques/photographie). Comemorações demarcadas pelo bicentenário da realização pelo francês Nicephore Nièpce da “primeira” imagem fotográfica” ou, como esclarece o Harry Ransom Center (EUA) onde esse objeto se encontra, da imagem “mais antiga que conhecemos” (https://www.hrc.utexas.edu/niepce-heliograph/).
Os eixos fundamentais da ação ministerial são importantes, mas a afirmação de que a França é “o país da invenção da fotografia” e a ênfase nesse marco cronológico (e não mais, por exemplo, ao ano de 1839, quando vários processos fotográficos, além do daguerreótipo, se tornaram conhecidos), são escolhas que revelam a persistência na anterioridade de um processo sobre os demais, questão recorrente na história da fotografia.
As narrativas sobre as invenções de processos fotográficos ocorridas na primeira metade do século 19 estão em disputa há cerca de duzentos anos, ou seja, desde os primórdios de uma história que se queria afirmar __ e de certa forma ainda se quer __ celebrando a primazia de um inventor, uma data e um local para uma invenção que tem muitas facetas.
A revista Photographica, atenta aos debates historiográficos sobre o tema, considerou oportuno abrir espaço nesse número comemorativo para um artigo sobre Hercule Florence e os primórdios do que passamos a chamar de fotografia, “oferecendo assim um contraponto descentralizado ao relato europeu de suas origens".
Mas, antes, a invenção de um processo fotográfico no Brasil precisou ser (re)conhecida pelos europeus e os norte-americanos. Esse “convencimento” é uma tarefa complexa... O amplo trabalho de pesquisa e a comprovação empírica da invenção de Hercule Florence, realizados por Boris Kossoy e divulgados por ele, internacionalmente, há mais de cinquenta anos, assim como outras iniciativas e publicações realizadas desde então, foram fundamentais para uma perspectiva decolonial na historiografia sobre o tema. Por isso mesmo, ao final do artigo fiz um extenso arrolamento da produção historiográfica e cultural sobre Hercule Florence que pode ser compreendida como parte do processo de reconhecimento e patrimonialização de sua figura e de seu legado.
Com base em seu artigo O “homem de invenções” e as “recompensas nacionais”: Notas sobre H. Florence e L. J. M. Daguerre (Anais do Museu Paulista, v. 16. n.2. 2008), poderia destacar alguns pontos em comum entre as trajetórias de Hercule Florence e Louis Daguerre?
Esse artigo foi pensado, inicialmente, para ser um dos capítulos de um livro que eu preparava sobre a expedição do Oriental-Hydrographe, navio-escola da marinha mercante franco-belga, iniciada em Nantes (França), em setembro de 1839, e encerrada em Valparaíso (Chile), com o naufrágio da embarcação, em junho de 1840.
Essa pesquisa foi iniciada em 2001, quando morei na França, e se estendeu nos anos seguintes por outros países, com a consulta e a transcrição de fontes documentais inéditas e ainda pouco acessíveis aos historiadores latino-americanos. Eu tive assim a oportunidade de me debruçar sobre a história da primeira viagem de circum-navegação com um daguerreótipo a bordo, experiência negligenciada pelas historiografias francesa e belga, além de praticamente desconhecida na chamada história mundial da fotografia. A presença do equipamento nesse tipo de viagem era muito importante para a expansão colonial europeia, envolvendo uma série de questões econômicas, geopolíticas e culturais diretamente ligadas à introdução do invento na América do Sul e às relações internacionais nesse período.
O texto sobre Florence acabou ficando tão extenso que optei por publicá-lo nos Anais do Museu Paulista, antes mesmo de concluir o livro. Além de ser uma revista muito conceituada, na qual o artigo e seus anexos podiam ser reproduzidos, transcritos e traduzidos na íntegra (manuscritos inéditos de Florence visando o reconhecimento da invenção da poligrafia na França), deixei para tratar no livro sobre a viagem do Oriental-Hydrographe apenas o que está relacionado ao impacto de sua chegada ao Brasil e as atividades e anseios de Florence em torno da fotografia. Depois desse artigo, apareceram na revista mais três trabalhos, de outros autores, dedicados ao Florence, de modo que a publicação viria a se tornar uma referência obrigatória nos estudos sobre o inventor.
Então, respondendo mais diretamente à pergunta, eu resumiria aqui o que está no próprio artigo: Daguerre e Florence foram “homens de invenções” do século 19, com características comuns à essa condição em uma época na qual as formas de legitimação, reconhecimento e valorização dos inventores e de suas invenções estavam sendo debatidas e institucionalizadas em várias partes do mundo. Ambos são sujeitos históricos que chegaram aos nossos dias como personagens patrimoniais. Nesse contexto, entram em cena a personalidade de cada um e a especificidade de suas respectivas invenções e trajetórias na memória coletiva.
A ideia da “arte de inventar” é o fio condutor de seus dois artigos, mencionados acima. Por que você escolheu essa lente e como essa noção ajuda a repensar o lugar de Florence entre os pioneiros da fotografia?
A “arte de inventar” é uma expressão muito antiga e cheia de nuances, a começar pelos mais diversos significados atribuídos à palavra “arte”. Os dicionários a definem, entre outras acepções, como a “capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma ideia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria”. Esta definição, por sua vez, é muito ligada a uma certa concepção, recorrente em nosso imaginário, que atribui às invenções a anterioridade de uma ideia, de um “clic”, como se os processos inventivos fossem mais próximos de um “achado”, de uma “descoberta”, do que das múltiplas experiências, adaptações, intercâmbios e ensaios cotidianos dos inventores, aí consideradas as modalidades de concepção técnica e as contingências da inovação. De modo que a compreensão da historicidade das invenções, observando-se as injunções políticas, econômicas e culturais que interferem na validação dos inventos e no reconhecimento dos inventores, também nos ajuda a descontruir alguns mitos do passado e do presente sobre a trajetória desses personagens.
Você tem a intenção de continuar suas pesquisas sobre Hercule Florence? Há outros arquivos e documentos ainda a explorar?
Sim, tenho esta intenção, especialmente se tiver saúde e energia para isso! Porque o Hercule Florence não é um personagem qualquer. As suas invenções, as suas memórias e os seus escritos são tão complexos que todo recorte temático dentro dessa história já se apresenta como um grande desafio para o historiador. Por isso mesmo, esta intenção se tornou mais viável e o meu interesse por seu legado cresceu ainda mais depois da criação do Instituto Hercule Florence, quando vários manuscritos de Florence passaram a ser digitalizados, transcritos, traduzidos e disponibilizados para o público no site do IHF.
Até então, eu só tinha acesso ao que podia ser encontrado em instituições públicas ou ao que já havia sido publicado por Boris Kossoy e outros pesquisadores. Em 2023, o convite para participar do Seminário Internacional 190 Anos dos Experimentos Fotográficos de Hercule Florence, promovido pelo Instituto Hercule Florence e pelo Instituto Moreira Salles, foi decisivo. O evento contou com a presença de vários pesquisadores brasileiros e estrangeiros e os trabalhos apresentados foram todos excelentes. O resultado de tudo o que vi, discuti e aprendi na ocasião tem me instigado desde então a explorar alguns temas deste vasto “universo” chamado Hercule Florence. Além disso, uma outra parte da sua documentação pessoal, preservada por seus descendentes, foi adquirida nesse mesmo ano pelo IMS, com a perspectiva de ser igualmente colocada ao alcance de todos os pesquisadores e do público em geral, o que por si só representa um grande estímulo ao abrir novas perspectivas de trabalho.
Qual é o papel das instituições hoje no processo de reconhecimento e patrimonialização da figura histórica de Florence?
Esse papel sempre foi relevante, tanto no caso de Florence, como de outros atores ligados à história das múltiplas invenções e aperfeiçoamentos de processos fotográficos ao longo do século 19, suas práticas e seus acervos, hoje preservados em instituições e coleções públicas ou privadas. Basta olhar o que se fez no passado e o que se faz até hoje, em diversos países, para resguardar e difundir a história de Niépce, Daguerre, Talbot, Bayard e do próprio Florence. As homenagens públicas, ainda em vida ou posteriormente, a criação de museus e associações, a preservação e a difusão de acervos, as biografias, os catálogos e as publicações para os mais diversos públicos são algumas das iniciativas, com quase dois séculos de história, em torno dessas figuras. A grande diferença é que o longo processo de (re)conhecimento desses “homens de invenções” foi amplificado em uma escala sem precedentes, a partir do final do século 20, com o aparecimento das mídias digitais, da internet, das redes sociais e, agora, já no século 21, das ferramentas de inteligência artificial. Então, se considerarmos que a memória e o esquecimento são igualmente “inventivos”, como disse o escritor Jorge Luis Borges, pode-se dizer que a importância e a valorização de Hercule Florence como um personagem patrimonial intrinsecamente ligado à história do século 19, e do Brasil em particular, é uma “obra” em processo construída por muitos atores sociais.