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21º ICOM-CC segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Hercule Florence ganha destaque no maior encontro mundial de conservação cultural

Getty, Laboratório HERCULES, IHF e IMS apresentam estudo científico que lança nova luz sobre as imagens fotográficas produzidas pelo inventor no Brasil há quase 200 anos.

Os cientistas Art Kaplan e António Candeias analisam fotografia de Hercule Florence no Laboratório HERCULES | Foto: Jorge Simão
Os cientistas Art Kaplan e António Candeias analisam fotografia de Hercule Florence no Laboratório HERCULES | Foto: Jorge Simão

Quase dois séculos depois de Hercule Florence realizar, no interior de São Paulo, experimentos pioneiros com a ação da luz para produzir imagens, novas análises científicas ajudam a revelar como o artista e inventor desenvolveu processos que o colocam entre os precursores da fotografia mundial.

Os resultados serão apresentados no dia 17 de setembro, em Oslo, na Noruega, durante a 21ª Conferência Trienal do ICOM-CC (International Council of Museums – Committee for Conservation), um dos mais importantes encontros internacionais dedicados à conservação do patrimônio cultural. Realizado de 14 a 18 de setembro de 2026, o evento reúne conservadores, cientistas do patrimônio, historiadores da arte, curadores e profissionais de museus de diversos países em torno do tema “Conexões Culturais na Conservação”.

O estudo Remote Visions: Hercule Florence's Photographic Innovations in Brazil (Visões remotas: as inovações fotográficas de Hercule Florence no Brasil) é resultado de uma colaboração internacional entre o Getty Conservation Institute (GCI), o Laboratório HERCULES da Universidade de Évora, o Instituto Hercule Florence (IHF) e o Instituto Moreira Salles (IMS).

A pesquisa apresenta os resultados das análises científicas realizadas em três artefatos fotográficos produzidos por Florence em 1833: dois rótulos de farmácia, pertencentes ao IHF e ao IMS, e um diploma maçônico, do acervo do IHF.

 

Experimentos que atravessaram dois séculos

Em sua busca por maneiras de reproduzir imagens, Florence realizou diversos experimentos de impressão de imagens pela ação da luz, cuidadosamente registrados em seus diários. Neles, descreveu procedimentos que utilizavam elementos como prata, ouro, água e até urina.

Os objetos, ainda visíveis quase 200 anos depois, foram examinados por uma equipe de especialistas em conservação liderada por Art Kaplan, do Getty Conservation Institute, e António Candeias, do Laboratório HERCULES. Entre as técnicas empregadas estão microscopia estereoscópica, espectroscopia de infravermelho por transformada de Fourier (ATR-FTIR), fluorescência de raios X (XRF) e microscopia eletrônica de varredura (SEM-EDS).

Para Kaplan, "a maioria das pessoas na área de conservação que trabalha com esse tipo de material concorda: estes são de fato alguns dos objetos fotográficos mais antigos — e não apenas nas Américas, mas talvez em todo o mundo".

Os primeiros resultados foram apresentados em maio de 2023, durante o Seminário Internacional 190 Anos dos Experimentos Fotográficos de Hercule Florence, organizado pelo IHF e pelo IMS, em São Paulo. Desde então, Art Kaplan deu continuidade às investigações no Getty Conservation Institute, em Los Angeles, aprofundando o estudo dos processos de fixação e estabilização utilizados por Florence.

 

Ouro e prata revelam o pioneirismo de Florence

As análises confirmam que as duas provas dos rótulos de farmácia foram produzidas utilizando ouro (Au) como metal formador da imagem. A intensidade do sinal de ouro está diretamente relacionada à densidade da imagem, evidenciando o uso pioneiro de sais de ouro por Florence — uma inovação até hoje sem registro entre os demais precursores da fotografia.

No diploma maçônico, por sua vez, os pesquisadores identificaram prata (Ag), confirmada pela primeira vez como o metal responsável pela formação da imagem.

A equipe também realizou reconstituições em laboratório dos procedimentos descritos nos diários de Florence, escritos em 1832 e 1836. Os testes confirmaram a eficácia dos estabilizadores mencionados pelo inventor — água, urina e amônia — em condições de envelhecimento acelerado.

Entre os processos testados, o que utilizava ouro demonstrou maior estabilidade à luz, independentemente do método de fixação. As análises dos objetos originais, no entanto, não identificaram evidências diretas dos fixadores, possivelmente em razão de sua alta solubilidade em água e da sobreposição espectral com o papel.

Kaplan afirma não conseguir realmente entender como os materiais foram estabilizados.Provavelmente porque são todos solúveis em água. Então, quando Florence coloca essas imagens novamente na água para remover aquele material, a maior parte — se não tudo — vai sair”, explica.

 

Um capítulo brasileiro na história da fotografia

A apresentação de Remote Visions na 21ª Conferência Trienal do ICOM-CC ajuda a preencher uma importante lacuna na história da fotografia e reforça o lugar de Hercule Florence entre seus pioneiros.

Seus experimentos foram realizados de maneira independente no Brasil, distantes dos centros europeus onde outros inventores desenvolviam, no mesmo período, processos que dariam origem à fotografia. As novas evidências científicas permitem compreender com maior precisão a originalidade das soluções encontradas por Florence e a relevância de suas descobertas.

As pesquisas não terminam em Oslo. Novas análises dos processos fotográficos experimentados por Florence continuarão sendo conduzidas por Art Kaplan nos laboratórios do Getty Conservation Institute. Os próximos resultados poderão lançar ainda mais luz sobre as descobertas do artista-inventor e sobre um capítulo da história da fotografia que começou no Brasil há quase dois séculos.

 

Assista ao vídeo com depoimentos dos cientistas que participaram das análises:


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