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Viagem fluvial sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O Livro Segundo de Hercule Florence: um testemunho raro da Expedição Langsdorff

Leia trechos da tradução inédita do manuscrito que documenta a segunda parte da histórica missão científica

O Livro Segundo de Hercule Florence: relato inédito da Expedição Langsdorff de Cuiabá a Belém (1827-1829), lançado pelo IHF no âmbito do projeto Langsdorff: a expedição fluvial 200 anos depois, traz a tradução inédita do manuscrito enviado por Florence em 1830 à Rússia, documentando a segunda parte da missão científica chefiada pelo Barão de Langsdorff, em complemento ao primeiro relato, feito pelo próprio Barão.

Por ser o único texto de Florence sobre a viagem cuja redação não foi reescrita nem “corrigida” por ele, O Livro Segundo, também chamado de Continuação, oferece um testemunho raro, mais “cru”, tanto da expedição quanto da sociedade brasileira do início do século XIX.

A narrativa cobre o período entre a estada em Cuiabá, em 1827, passando pelo dramático trecho até a Amazônia, até o retorno ao Rio de Janeiro, em 1829. Os registros transmitem o caráter de imediatismo e frescor diante do impacto causado pelas paisagens e pelos perigos dos rios, além dos encontros com as populações indígenas, o dia a dia em fazendas e vilas, os conflitos internos da expedição e as dificuldades do trabalho científico e artístico ao longo da trajetória.

Com organização da historiadora Maria de Fátima Costa, o volume tem prefácio de Chiara Vangelista e texto de Thierry Thomas sobre a transcrição feita por ele do manuscrito, que mantém as anotações, correções rasuras feitas pelo próprio Florence no original. 

 

Leia um trecho da introdução:

Um novo – e muito antigo – texto de Hercule Florence, por Maria de Fátima Costa

Ao descrever sua viagem, Florence sentiu a necessidade de, em meio ao texto, como o fez posteriormente nas outras versões de sua narrativa, esboçar figuras para com elas melhor apreender os lugares e objetos que via pela primeira vez. Esse proceder, sabemos, não é algo inédito. À época, era um expediente comum, utilizado para registrar tudo aquilo “que a narração não for capaz de descrever perfeitamente, e com clareza”, como consta num escrito português do final do século XVIII (Sá, 1783, p. 210). Curioso e que os outros artistas que fizeram parte da caravana russa, nomeadamente Rugendas e Taunay, não tenham usado esse recurso; aliás, nenhum deles sequer escreveu narrativas. Mas na expedição russa Florence não esteve sozinho nesse afazer; como já mencionado, seu chefe, G. H. von Langsdorff, cultivava o hábito de escrever diários e neles também costumava esboçar tudo aquilo que precisava reter em detalhes. [págs. 54-55]

 

Leia trechos do relato de Hercule Florence:

Hercule Florence (1804-1879) Continuação, 1830, f. 5 Acervo Maria de Fátima Costa
FIG. 25
Hercule Florence (1804-1879)
Continuação, 1830, f. 5
Acervo Maria de Fátima Costa

Digressão de Cuiabá para a Vila de Guimarães

Partimos em 28 de abril de 1827. A duas léguas a leste da vila cruzamos o rio Coxipó-Guaçu e andamos mais uma pequena légua até um sítio em que passamos a noite. No dia seguinte, caminhamos por uma região plana e irregular, até o pé da Serra da Chapada, a sete léguas a leste da vila. Começamos a subir, ou melhor, a escalar, pois a subida e muito inclinada. O caminho é muito ruim, cheio de rochedos. Ao pé da serra, atravessamos cinco vezes um riacho que faz várias curvas.

Perto do topo, ouvimos o barulho da queda muito alta de uma torrente que passava por uma garganta, a qual pode chegar a cinquenta pés de altura, mas não a vimos por causa da mata. No cume, nos deleitamos com uma bela vista. Vimos a região plana por onde corre o Cuiabá e os campanários da vila. A área estende-se a perder de vista do leste ao norte. E o prolongamento da cadeia de Montanhas Serra (cadeia de montanhas que beira uma região plana, acima da qual há outra região plana ou montanhosa ainda mais elevada).

Dessa extensão partem ramificações que morrem na planície. Ao sul, vimos os Pantanais campos que havíamos adentrado com nossas canoas. Estávamos ao pé do Morro de São Jerônimo, uma grande montanha escarpada de todos os lados no alto da qual há uma planície de quatrocentos ou quinhentos passos. Tínhamos a leste a região denominada Chapada, repleta de colinas e vales, cerca de 1.400 pés mais alta que a região plana de Cuiabá. [págs. 76-77]

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Depois de um mês e meio de estada, continuamos nossa excursão até o Quilombo, rica mina de diamantes situada doze léguas a nordeste de Guimarães. No caminho vimos grande número de rochedos estreitos e altos que pareciam pilares e ficavam muito próximos uns dos outros. No Quilombo, a vegetação parecia ter mudado de fisionomia pela grande quantidade de palmeiras de uma espécie chamada guaguaçu.

Há florestas dessa palmeira.

A guaguaçu é uma palmeira grande; seu pé é alto, as folhas são como se vê no desenho. Elas recurvam-se apenas um pouco e a ponta não cai como nas outras palmeiras. [págs. 85-86]

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Apenas as pedras preciosas encontradas nessas terras e em seus arredores é que podem ter estimulado as pessoas a fundarem-na. Mas não foi para formar uma vila agradável e cultivar os campos; muito pelo contrário, os mineiros só fazem revolvê-los; só plantam o necessário, o que é N natural. No meio desses desertos, em que toda extração é muito dispendiosa por causa do transporte, apenas o ouro e os diamantes podem dar lucro, porque seu transporte não custa nada. Sem esses preciosos objetos, não se conheceria senão a província de Mato Grosso [....] talvez fosse desconhecida e, com certeza, ainda mais deserta.

A ambição, às vezes, abre caminho para a benfeitora ciência: a primeira pode fazer o bem, mas sem o saber e sem intenção; a segunda visa apenas a felicidade dos homens.

Ainda se encontram muitos diamantes nas minas de Diamantino; durante nossa estada foi descoberta uma mina bastante preciosa que, em conformidade com a lei, foi dividida entre todos os pretendentes que se apresentaram. Caso houvesse um tal número de pretendentes que a cada um caberia apenas um pé quadrado de terreno, ainda assim se faria a divisão. Os pretendentes são obrigados a começar a explorar seu terreno em até seis meses; passado esse prazo, o terreno é dado a outro. [pág. 113]

 

O Livro Segundo de Hercule Florence: relato inédito da Expedição Langsdorff de Cuiabá a Belém (1827-1829)

Autor: Hercule Florence

Organização: Maria de Fátima Costa

Apresentação: Antonio Florence

Prefácio: Chiara Vangelista

Sobre a transcrição: Thierry Thomas

Tradução: Alain François (com base na transcrição de Thierry Thomas)

Formato: capa dura; 15 x 23 cm

Páginas: 184

R$ 120,00

ISBN: 978-85-69639-02-2



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