Grant Romer, autoridade mundial nos primórdios da fotografia, aborda as buscas e descobertas de Hercule Florence em seus experimentos do processo fotográfico.
Se lhe dissessem que um jovem, sem estudos superiores, vivendo em um pequeno assentamento rural no Brasil, desprovido de recursos, em 1833 inventou a fotografia de forma independente, você acreditaria? Hercule Florence fez essa afirmação em 1839, e um historiador brasileiro a fez novamente na década de 1970. Desde então, a afirmação tem sido considerada duvidosa pelos historiadores da tecnologia, já que nada que se pareça com fotografia tenha sobrevivido, tal como ela é comumente entendida. Recentemente, um grupo de estudiosos, cientistas, profissionais da conservação e descendentes daquele jovem, Hercule Florence, reuniu-se no Laboratório HERCULES em Évora, Portugal, para examinar e analisar evidências remanescentes do que se acreditava que fossem exemplos de trabalho fotográfico. A conclusão... Sim, ele de fato inventou a Fotografia.
Não é necessário reescrever inteiramente a história da invenção da Fotografia, já que vários outros também afirmaram tê-la “inventado”, mais ou menos ao mesmo tempo que Florence. Todos eles tinham vantagens significativas em comparação com Florence e, exceto dois, ninguém avançou mais do que ele em 1833. Quando Florence soube, em 1839, que um artista francês, Louis Mandé Daguerre, havia encontrado um meio de fixar a imagem da câmera escura, ele ficou atordoado. Sem conhecer mais profundamente o processo de Daguerre, Florence rapidamente decidiu publicar em um jornal brasileiro uma declaração de prioridade de invenção. Ele descreveu como começou seu caminho para inventar a Fotografia:
“Tendo tido o desejo, em 1830, de publicar uma memória com a intenção de fazer das vozes dos animais um novo tema de Estudos da Natureza, e de me encontrar em um país onde não havia nenhuma oficina de impressão, entendi como seria útil se esta arte [impressão] fosse simplificada, tanto em termos de equipamento quanto de processo, de modo que todos pudessem imprimir tudo o que fosse necessário. Assim, dediquei-me ao estudo das artes gráficas e, com os poucos livros que tinha, [...] ocorreu-me que talvez fosse possível obter imagens a partir da câmera escura por meio de um corpo que pudesse mudar a cor mediante a ação da luz.”
Assim, a partir de 1832, enquanto trabalhava em um simples meio de impressão, Florence começou a fazer experimentos fotográficos com nitrato de prata, do qual tomou conhecimento junto a um farmacêutico. Mais tarde, ele declarou ter feito importantes avanços ao longo dos cinco anos seguintes. Depois de aprender os detalhes da invenção de Daguerre, ele escreveu:
“É verdade que, por alguns anos, tenho usado a fotografia para desenhar e que em 1834 fiz isso na presença dos Srs. Riedel e Lund [sic], que levaram com eles alguns de meus desenhos fotográficos [...] talvez não fosse precipitado dizer que eu também inventei a fotografia [...] mas a verdade é que eu não prossegui com meus experimentos e, por essa razão, não quero atribuir a mim mesmo uma descoberta sobre a qual outros possam ter mais direitos.”
Florence reconheceu que uma ideia poderia ocorrer a vários indivíduos ao mesmo tempo. De fato, isso aconteceu. Pelo menos quinze indivíduos declararam formalmente, em 1839, terem inventado sistemas de Fotografia. Todos mantiveram seus conceitos e experimentos em segredo, temendo que a ideia fosse roubada antes de terem resolvido certos problemas, principalmente o de tornar a imagem permanente.
Assim como Florence, eles trabalhavam com sais de prata, que se espalhavam em solução no papel e rapidamente escureciam quando expostos à luz. As imagens resultantes estavam em negativo, ou seja, registrava-se escuridão onde havia exposição à luz. Para produzir uma imagem suficientemente forte, as exposições duravam longos minutos e horas, dependendo de variáveis como, hora do dia ou estação do ano. Muitos, como Florence, cessaram seus experimentos quando viram os exemplos do processo de Daguerre, que era muito superior a tudo o que haviam conseguido até então. O processo do Daguerreótipo utilizava uma placa metálica altamente polida em vez de papel, exigia minutos em vez de horas para formar uma imagem, produzia uma imagem positiva direta, altamente detalhada e finamente modulada, o equivalente virtual da experiência visual em uma monocromia neutra.
Não se pode deixar de sentir compaixão por Florence e pelos demais que, com toda sinceridade, sentiram que haviam concebido uma tecnologia de “impressão com luz”. Obviamente, algo comum a todos havia estimulado esse conceito e motivado seus esforços.
Os historiadores, ao contabilizar o surgimento da tecnologia fotográfica, constatam o rápido progresso da ciência no final do século XVIII e início do XIX. A descoberta de novos elementos e a exploração de suas propriedades certamente contribuíram para isso. Mas, talvez o mais importante tenha sido a concorrência internacional na busca por aplicações práticas para as descobertas que conduziram à fotografia e a muitas outras tecnologias inovadoras.
Hoje estamos muito distantes, tecnologicamente, da época em que Florence viveu. Em 1824, quando ele chegou ao Brasil, a tecnologia das máquinas a vapor estava apenas começando a se disseminar. A primeira estrada de ferro no Brasil chegou em 1835. Não havia tecnologia baseada na eletricidade. Algo tão básico como a bicicleta com pedais não existia. A impressão era o único meio de comunicação. Entretanto, houve avanços tecnológicos, principalmente na tecnologia de impressão, sob a forma da litografia. Ela revolucionou as artes gráficas, fazendo, como se dizia, “boas imagens baratas e imagens baratas boas”. Na época, reconhecia-se amplamente que a tecnologia poderia “[...] aliviar o fardo da humanidade, contribuir para o próprio conforto e tornar as nações ricas”. Os governos incentivaram a inovação tecnológica de várias maneiras e muito mais gente buscava descobertas e invenções em comparação com o século anterior. Com efeito, o que poderia muito bem ser chamado de “Era da Tecnologia” tinha apenas começado.
Quando Florence partiu de Mônaco, ele ainda não era um inventor. Sua profissão declarada era “Desenhista”. Ele vinha de uma família diretamente ligada às Belas Artes e Florence evidentemente tinha uma aptidão para desenhar e deve ter tido algum treinamento formal para afirmar ser um desenhista profissional. O desenhista tinha que fazer desenhos lineares precisos, plantas arquitetônicas, mapas e projetos para máquinas. Também atendia à necessidade de cópias dos mesmos. O trabalho exigia grande atenção à precisão em todos os seus aspectos. Era comum o uso de certos recursos de desenho mecânico e ótico, como a câmara escura, a câmara lucida e o pantógrafo, para economizar tempo e garantir exatidão. Tais ferramentas exigiam muita prática para aplicá-las de forma eficiente e adequada. Florence já estaria habituado ao uso desses instrumentos quando chegou ao Brasil. Pouco depois encontrou trabalho na Expedição Langsdorff como “Segundo Desenhista”. Durante os cinco anos seguintes, ele constantemente produziu desenhos, registrando visualmente as descobertas dessa missão de sondar as regiões inexploradas do interior do Brasil.
Basicamente, seus serviços eram os que a fotografia viria a substituir. Ele estava na companhia de muitos europeus altamente instruídos e privilegiados, empenhados na descoberta de recursos naturais desconhecidos. Um deles era Karl Drais, um prolífico inventor de dispositivos mecânicos que em 1818, em Baden, havia sido nomeado “Professor de Mecânica”, com a invenção do velocípede, a primeira bicicleta dirigível com assento ajustável. Em 1827, ele também havia inventado um dispositivo para gravar música de piano em papel, a primeira máquina de escrever com teclado e uma máquina de estenografia primitiva usando 16 caracteres. É razoável supor que Florence tivesse contato direto com Drais e outros que o inspiraram a inventar. Enquanto servia na expedição, Florence concebeu e executou um sistema para gravar com precisão, mediante notação musical, as canções dos pássaros que ele encontrava. Ele nomeou esta invenção de Zoofonia.
A transição de “artista” para “inventor” estava longe de ser única naquele período. A litografia havia sido inventada por Samuel Morse, um ator e dramaturgo, que buscava publicar suas peças a baixo custo. Quando ele criou o telégrafo, era um pintor de retratos. O próprio Daguerre, era um famoso cenógrafo e artista quando inventou o Diorama, reconhecido precursor do cinema.
Florence estava muito familiarizado com a invenção da litografia e certamente leu A Complete Course of Lithography [Um Curso Completo de Litografia] de Alois Senefelder, publicado em 1818. Ali, Senefelder relata como concebeu a invenção, como se empenhou em refinar o processo ao longo dos anos, enfrentando a pobreza, e como finalmente conseguiu, após 18 anos de esforço, introduzi-la na França, onde a técnica prosperou. Florence se refere a essa história muitas vezes em seus diários, relacionando suas próprias lutas com as de Senefelder. Mais importante ainda, foi o princípio da litografia, chamada pela primeira vez por Senefelder de “Impressão Química”, que Florence tomou como ponto de partida para seus experimentos de impressão.
A litografia era um novo meio gráfico. Ela inspirou muitos dos outros que conceberam a fotografia não apenas como uma forma de fazer fotos, porém, mais importante, como uma forma de ganhar dinheiro. É importante ressaltar que Josef Nicephore Nièpce, geralmente considerado o primeiro a conseguir uma fotografia verdadeira, começou seu trabalho com a tentativa de encontrar uma alternativa à pedra como base da litografia. Assim como Florence, ele pensou em usar uma placa de metal em vez de um bloco de pedra pesado e volumoso.
Antes da introdução da litografia, havia apenas três tipos de impressão: estêncil, relevo e entalhe. O princípio de transferência de pigmento ou de fórmulas especiais de tinta, seja por leve pressão ou migração, já era aplicado na tecnologia de cópia de cartas desde o final do século XVIII. Com tais métodos, somente se conseguia produzir algumas cópias de baixa qualidade. A “imprensa copiadora de cartas” comum era conhecida por Florence, pois ele se refere a ela como sendo utilizada por empresas no Brasil.
Florence iniciou seus experimentos com impressão modificando o processo litográfico. Com o tempo, ele chamou seu método de Poligrafia, que era uma forma modificada de litografia. Este foi o principal foco de seus esforços inventivos, aquele que manteve por mais tempo e que sentiu ser o mais significativo. Como artista gráfico, ele tinha uma maior familiaridade com os materiais e métodos de impressão. Afirmou também ter conseguido imprimir cinco cores ao mesmo tempo, algo extraordinário, já que ninguém conseguiria executá-lo até o século XX.
Os experimentos fotográficos de Florence tinham forçosamente um foco secundário. Em razão de seus escassos conhecimentos de Química e pelo pouco acesso a informações, ele progrediu lentamente. Seus primeiros esforços seguiram o princípio da impressão em estêncil. Ele cobria uma lâmina de vidro com um revestimento opaco e, com um estilete, fazia um desenho linear. Revestindo o papel com uma solução de nitrato de prata, ele colocava a folha de vidro em contato e a expunha à luz solar. Isso resultava na passagem da luz através das áreas claras do desenho e no escurecimento do nitrato de prata, formando assim uma cópia exata. Esse método de obter uma fotografia é conhecido como “impressão direta”. Florence havia conseguido “imprimir com luz”. Ele continuou aperfeiçoando esse sistema, empregando cloreto de prata e cloreto de ouro, que formavam uma imagem mais rapidamente do que com o nitrato de prata, além de resultar em uma cor mais agradável. O desafio seguinte era a fixação da imagem, algo que ele conseguiu de forma animadora com a urina, na época uma fonte comum de amônia e um conhecido solvente da prata.
Surpreendentemente, Florence havia concebido o sistema de fotografia com negativos em vidro e positivos em papel, que viria a ser o sistema dominante utilizado desde a década de 1860 até o ano 2000. Ele usou esse método para imprimir etiquetas de farmácia, anúncios, um certificado maçônico e cópias de seus desenhos da expedição Langsdorff. Exemplos dessa conquista sobrevivem até hoje e foram objeto de recente esforço de análise laboratorial.
Após demonstrar a possibilidade de imprimir imagens quimicamente pela ação da luz, Florence prosseguiu na tentativa de capturar a imagem projetada por uma lente. Sua primeira câmera utilizava uma das lentes de um telescópio de baixa potência, a qual fixou na abertura do polegar de uma de suas paletas. Por detrás dela, fixava uma pequena caixa de papelão com um espelho, como no desenho Câmara Escura, para que a imagem projetada saltasse até uma tela de vidro moído onde estava o papel sensibilizado. Com isso, fez sua primeira exposição de câmera de quatro horas, capturando a vista de sua janela. Ele escreveu com entusiasmo em seus diários:
"A ação da luz desenhou os objetos na câmara escura: fixou apenas as grandes formas, os contrastes salientes: e isto, com o defeito de tornar escuras as partes claras e vice-versa, mas este sistema de obter desenhos por meio da natureza e não da mão humana, não é, apesar de sua precariedade atual, um fato novo nas artes; e um fato de grande interesse? Não é suscetível de ser melhorado? Não terei iniciado a mais maravilhosa arte de desenhar qualquer objeto, de capturar uma vista, sem me dar ao trabalho de ser eu mesmo a fazê-lo?"
Estas são as palavras de uma mente aguçada, com a visão romântica de um destino glorioso. Suas anotações posteriores revelam uma compreensão notavelmente clara e sofisticada do que tinha que ser feito para melhorar seus resultados e dos benefícios potenciais da tecnologia. Entre seus desenhos, seu segundo projeto de câmera foi um grande avanço em relação à primeira precária câmera de paleta. Florence acrescentou um tubo de lente ajustável, um portal de observação para assegurar o foco correto e suprimiu o espelho, a fim de reduzir o tempo de exposição. Com essa câmera ele fez uma série de fotografias do exterior de prédios próximos. Lamentavelmente, exemplos das imagens produzidas por sua câmera ainda não foram identificados entre tudo o que sobrevive de seu legado. Por essa razão, os historiadores no século XX tendiam a duvidar dessa realização.
Entretanto, os esforços de um historiador brasileiro, Boris Kossoy, juntamente com os descendentes de Florence, que haviam preservado seu legado, despertaram o interesse internacional para sua obra na década de 1970. A indústria fotográfica, baseada na química de halogeneto de prata com a qual Florence havia começado, estava no auge de seu desenvolvimento. A partir do ano 2000, no entanto, a fotografia digital passou a dominar a indústria. A questão, “quem inventou a fotografia?”, não tem mais o interesse e a importância de anteriormente. Muitas respostas diferentes a essa pergunta podem ser encontradas nos livros de história, muitas vezes são determinadas por preconceitos nacionais e ganham uma definição muito vaga de “Fotografia” e “Foto”.
No caso de Florence, é muito importante ter uma definição clara de ambas. “Fotografia” é uma tecnologia. Como foi dito anteriormente, tecnologia é uma forma de ampliar os limites naturais da capacidade humana. Em suas primeiras aplicações significativas, a Fotografia era essencialmente uma tecnologia de memória. Ela ampliava a memória visual e o fazia com mais precisão e menos trabalho especializado do que a capacidade de representação gráfica dos artistas. Uma “Foto” é fundamentalmente um registro de vários graus de energia radiante formada em um determinado momento em uma determinada superfície. Com tal entendimento, deve reconhecer-se que Hercule Florence inventou e conquistou a Fotografia na década de 1830, em circunstâncias isoladas, independentemente de outros e antes do conhecimento público da tecnologia. Até a recente análise, não havia sido completamente confirmado que suas impressões remanescentes de rótulos de farmácia e outros desenhos eram verdadeiramente baseados em cloreto de prata e cloreto de ouro. Embora possa parecer improvável que Florence tenha realmente inventado a fotografia, isso hoje é um fato comprovado. Mais importante ainda, é claro que estes são os mais antigos exemplos a sobreviverem entre as imagens geradas fotograficamente. Portanto, constituem artefatos do maior valor para o entendimento das origens dessa tecnologia profundamente importante.
Claramente, se Florence tivesse estado na Europa, com amplos recursos, poderia ter feito maiores avanços e obtido tanto glória quanto fortuna. Ele certamente, e infelizmente, sentiu que assim era. Sua fascinante história vai muito além de um relato da tragédia humana. Deve ser compreendida num contexto muito mais amplo que o da invenção da Fotografia. Ele foi, por excelência, um homem do século XIX. Produto da Revolução Francesa, que reconheceu os direitos do homem de todas as classes e incentivou novos empreendimentos individuais.
Suas outras invenções, particularmente aquelas relacionadas à impressão, ainda não foram totalmente investigadas. Seu espírito empreendedor e seus esforços devem também ser considerados em um contexto histórico. Embora esta seja uma história do século XIX, ela tem uma conexão direta com o presente, pois a tecnologia iniciada em seu tempo continua desempenhando um papel na vida atual.
Ainda não foi feita justiça a Hercule Florence, mas ela se encontra em pleno andamento. Por meio dos esforços evidentes de seus descendentes, principalmente de Antonio Florence, seu legado está sendo preservado, estudado e amplamente publicado, cumprindo assim a esperança de Florence de ter sua voz ouvida um dia e suas conquistas reconhecidas.
Grant B. Romer
Rochester NY, fevereiro de 2023.
Grant Romer é historiador da fotografia, pesquisador, daguerreotipista e conservador. É reconhecido como uma autoridade mundial enos primórdios da fotografia, especialmente no que diz respeito à história, à prática e à conservação do daguerreótipo. Escreveu e ministrou palestras sobre muitos outros aspectos da história da fotografia. Em 1976, ingressou na equipe da George Eastman House, assumindo o cargo de Conservador de Fotografia, em 1989. Durante sua atuação na Eastman House, foi curador de diversas exposições. Em 2010, a The Daguerreian Society concedeu-lhe o Lifetime Achievement Award pelo conjunto de sua obra. Ele também prestou consultoria a muitas das mais importantes coleções fotográficas institucionais do mundo. Em 2014, Grant e Ariadna Romer fundaram a Academy of Archaic Imaging, dedicada a explorar a história da aplicação da tecnologia na representação da experiência visual.
Tags: fotografia história invenção
Manhã do primeiro dia do Seminário Internacional Cento e Noventa Anos dos Experimentos Fotográficos de Hercule Florence traz análises científicas realizadas em fotografias do século XIX
“Não teria eu iniciado a arte mais do que maravilhosa de desenhar qualquer objeto, sem dar-me ao trabalho de o fazer com a própria mão?” Hercule Florence, 24 de junho de 1833