Leia trechos do Caderno de Viagem de Hercule Florence
O Caderno de viagem de Hercule Florence (1825-1829): esboços da Expedição Langsdorff é uma das três publicações lançadas pelo IHF no âmbito do projeto Langsdorff: a expedição fluvial 200 anos depois. Com uma vasta seleção das imagens produzidas por Florence durante a histórica missão científica que percorreu cerca de 13 mil quilômetros pelo interior do Brasil no século XIX, o volume inclui representações da flora, fauna e dos povos indígenas das regiões visitadas.
Fundamental para a compreensão das práticas de produção de conhecimento no contexto das viagens naturalistas que cruzaram o território brasileiro, o caderno de campo é marcado pela diversidade de registros gráficos – do traço leve a grafite às intervenções em aquarela – e pela presença de anotações que articulam imagem e escrita.
Organizado pela historiadora Lorelai Kury, a edição traz textos de Maria de Fátima Costa, Iris Kantor, José Rogério Beier, Gloria Kok, Francis Melvin Lee, João Cândido Santos e da organizadora, que contextualizam a viagem e analisam os desenhos de Florence, além dos aspectos materiais do caderno ligados ao fazer científico.
Leia trechos:
As artes cartográficas na configuração das paisagens e itinerários da Província de São Paulo: a experiência de Hercule Florence, por Iris Kantor e José Rogério Beier
No que diz respeito ao caminho fluvial de Porto Feliz a Cuiabá, tratava-se de uma rota bastante difícil, que seguia por rios muito encachoeirados, em especial o Tietê, o Pardo e o Coxim. Iniciado nos anos 1720, o percurso durava, em média, cinco meses para ser completado, tempo que equivalia ao empregado nas navegações de Portugal à Índia e era muito mais do que o despendido na viagem entre o Rio de Janeiro e Lisboa, que se fazia em dois meses. O roteiro das primeiras viagens era variável, mas por volta de 1720 foi se consolidando a navegação pelos rios Tietê, Paraná e Pardo, com a instalação de um varadouro no ribeirão Sanguessuga. Este último, localizado no ponto onde o divisor das águas entre o Paraná e o Paraguai atinge sua menor largura, era o local onde as canoas eram esvaziadas e transportadas, por terra, cerca de duas léguas e meia, com a ajuda de uma junta de bois. [pág. 57]
********
Os desenhos etnográficos no Caderno de esboços de Hercule Florence, por Glória Kok
Em 11 de abril de 1828, Florence avista a aldeia dos Apiacás, falantes da mesma língua, apiacá (originária de um subgrupo da família tupi-guarani), que ocupavam as margens dos rios Arinos e Juruena.
Pioneiro na representação desses indígenas, que então quase não mantinham contato com os brancos, Florence realizou um conjunto de treze desenhos e aquarelas dos Apiaká, de grande valor artístico e documental, em vista de sua aguda observação e cuidado no registro das diferenças de etnia, gênero e faixa etária, distanciando-se das representações do “índio genérico” produzidas por artistas seus contemporâneos, como Jean-Baptiste Debret (1768-1843), por exemplo, cujos desenhos de cunho etnográfico não foram realizados pela observação direta, mas, sim, inspirados nos materiais etnográficos exibidos nos museus ou nos indígenas que raramente visitavam a capital do Império, o Rio de Janeiro. Basta dizer que os Apiaká, considerados extintos em meados do século XIX, se pautaram nos desenhos de Hercule Florence para a reconstrução da memória e a valorização da identidade, e nas lutas para a recuperação de seus territórios originais. [págs. 91-92]
*********
O Caderno de esboços de Hercule Florence e as representações da natureza, por Lorelai Kury
Os desenhistas da Expedição Langsdorff registraram plantas e animais ainda vivos ou recém-colhidos e abatidos. Essas circunstâncias podiam garantir a representação e anotação de informações às quais dificilmente os estudiosos europeus de gabinete teriam acesso. As duras condições de viagem e a quantidade de trabalho a ser executado impediam que todos os objetos fossem desenhados e pintados com precisão ou mesmo concluídos. O Caderno de esboços de Florence é basicamente um caderno de estudos. Esboços de formas, de conjuntos de plantas, de partes específicas de animais. Os desenhos não foram finalizados de modo a permitirem acompanhar descrições taxonômicas textuais, mas certamente muitos são representações de história natural. [pág. 105]
No Caderno, diversos esboços trazem indicação de cor, o que é uma informação de extrema utilidade para o trabalho científico posterior. Os animais empalhados, as peles, carcaças e partes tratadas com venenos ou conservadas em álcool perdem a vivacidade das cores e, como se sabe, a cor pode ser elemento essencial para a classificação de espécies. No material que se encontra na Academia de Ciências da Rússia vê-se que Florence também indicava muitas vezes a escala adotada, com anotações como grandeur nature (tamanho natural) ou réduit (reduzido). [pág. 107]
Caderno de viagem de Hercule Florence (1825-1829): esboços da Expedição Langsdorff.
Autor: Hercule Florence
Organização: Lorelai Kury
Colaboradores: Maria de Fátima Costa, Iris Kantor, José Rogério Beier, Gloria Kok, Francis Melvin Lee, João Cândido Santos
Formato: capa dura; 22 x 24 cm
Páginas: 400
R$ 280,00
ISBN: 978-85-69639-01-5
Artigo de Pablo Diener e Maria de Fátima Costa estuda o surgimento da categoria da Arte de Viajantes no âmbito das expedições científicas do Século das Luzes, até se constituir num gênero artístico que, nas primeiras décadas do Oitocentos, foi ganhando autonomia e definição