Por meio de uma visão decolonial acerca do gênero literário criado pelos viajantes naturalistas no Brasil oitocentista, o artigo mostra não apenas a violência dessas operações, como o silêncio que produziram acerca dos guias que acompanhavam os cientistas.
Lilia Moritz Schwarcz
Em seu clássico livro chamado Tristes trópicos, Claude Lévi-Strauss escreveu que tinha "ódio às viagens." Entretanto, não deixou de reconhecer a importância delas na sua experiência subjetiva. “Em geral concebemos as viagens como um deslocamento no espaço. É pouco. Uma viagem inscreve-se simultaneamente no espaço, no tempo e na hierarquia social.”1
Viajar é, pois, uma atitude existencial, ainda mais no caso brasileiro, em que uma série de viajantes invadiram esse território, até então, desconhecido” (para eles), percorrendo o país de ponta a ponta, do XVI ao XIX, em busca de riqueza, conhecimentos, ou visando sanar a própria curiosidade. Esse se transformou, então, em um movimento no, através do e sobre o espaço. Saberes, práticas e técnicas eram então produzidos e circulavam dentre naturalistas e instituições de diferentes lugares, mas que se encontravam interligados numa rede ampla.
A formação empiricista os fazia supor haver uma verdade que poderia ser alcançada apenas por meio do encontro com as coisas e os fenômenos que os gabinetes e recintos fechados não permitiam. E por isso as viagens ganharam um estatuto central para a produção da ciência e da arte naturalista – ambas atividades muito conectadas nesse contexto.
Viajava-se, então, na esteira da formação dos Estados-nação, dos impérios coloniais, e também da expansão comercial, junto com as missões religiosas e as migrações populacionais. Esses eram naturalistas, cartógrafos, agrimensores, engenheiros, escritores, artistas, jardineiros, etnógrafos, colecionadores, exploradores, antiquários; isso sem esquecer de mercadores, religiosos, diplomatas e nobres. Aliás, as relações ambíguas entre profissionalismo e amadorismo, durante os séculos XVIII e XIX, são tema frequente das análises e estudos sobre essas viagens.2
É assim, nesse momento que ocorre uma guinada teórica e experiencial significativa, quando alguns europeus passam a preferir viagens para continentes do assim chamado Novo Mundo. Há que se destacar como, até então, existia uma grande ênfase no que Edward Said chamou de “orientalismo.” Inspirado no conceito de Michel Foucault de discurso, o autor mostra como mais do que mera imaginação ou ideologia, o orientalismo ganhou uma existência prática nos institutos, exposições, arquivos, museus, universidades, na burocracia colonial, nos estilos de administração dos estados imperiais, e cujas consequências tiveram significativo impacto nos territórios onde estiveram, nas coisas e nas pessoas.3
Assim, e como mostra André Bailão, esse novo saber sobre os trópicos levou à uma generalização discursiva a respeito de regiões muito diversas, bem como a uma redução a um tipo idealizado, mas também ganhou uma existência material e real, nesse contexto de trânsito de saberes, práticas e instituições dedicadas a plantas, climas e doenças, que passaram a ser classificadas e compreendidas como “tropicais.”4
Esse é o contexto em que se desenvolve uma “medicina tropical” com seus próprios institutos, revistas especializadas, manuais e congressos; são publicados livros de botânica tropical, bem como criados jardins botânicos, de aclimatação e estufas reunindo plantas tropicais do mundo todo.5
Essa circulação de saberes e de espécimes mostra como essas paisagens, que eram tropicais, foram também “tropicalizadas,” na esteira da colonização europeia. Nesse sentido, a produção textual e imagética dos viajantes conforma um excelente ponto de partida para uma análise sobre a constituição da “tropicalidade,” especialmente os escritos dos naturalistas a respeito das paisagens, que, para além da virtude da descrição, expõem também os processos de transformação dos modos de olhar, descrever e desenhar, bem como a complexidade de sentimentos, sensações e atitudes envolvidas na feitura das ciências em meio às viagens.
Esses sentimentos, atitudes e narrativas ajudam a entender como esse foi um conceito criado não como uma simples projeção de ideias europeias difundidas para o resto do mundo, mas como resultado de experiências naturalistas diante das novas paisagens, seres, fenômenos e pessoas que encontraram.6 Como bem demonstram Nancy Stepan e Luciana Martins, essas impressões nada tinham de inocentes, pois vinham informadas por concepções arraigadas e de mais longo curso, assim como eram atualizadas pelas experiências recentes.7
Nessa perspectiva, os relatos de viagem foram centrais para a constituição dos conhecimentos, mas também imaginários acerca dos trópicos, tendo servido como fonte de leitura para gerações de políticos, escritores, poetas, romancistas e artistas das recém-independentes nações sul-americanas. E dentro desta nova orientação, a então colônia portuguesa nas Américas, o rico Brasil, se transforma num local privilegiado. E se a paisagem natural era retratada como um novo Éden, já a humanidade passava por severas restrições, sobretudo por conta de seus costumes considerados exóticos quando não detraídos e depois degenerados.
Desde a tradição portuguesa mais pessimista de Gandavo, até a visão basicamente otimista dos textos franceses, como o relato de Jean de Léry, os homens desse lado de cá, do assim chamado Novo Mundo, sempre chamaram atenção, sendo a ambiguidade, entre natureza e cultura, constitutiva desse pensamento viajante.
Pode-se dizer, apenas didaticamente, que as viagens científicas ao território americano se dividem em dois períodos. Até 1808, verifica-se o predomínio das viagens de objetivo naturalista ou geopolítico, feitas por luso-brasileiros; já no segundo momento é a iniciativa externa que toma vulto. Era toda uma nova política concernente à imigração que se afirmava, uma vez que, até então, a entrada de viajantes de outras potências estrangeiras quando não proibida era muito dificultada.8
No entanto, a partir do vice-reinado, e com a abertura dos portos, em 1815, o então vice-reinado acabaria invadido por um “batalhão” de naturalistas estrangeiros, com o território virando um conjunto coerente de animais, plantas, condições geográficas e topográficas, regime de rios, minérios, ventos, coisas e (também) seres humanos, todos devidamente classificados. E “essência” do país era condensada, então, por sua condição tropical; um substrato simbólico absolutamente presente nas interpretações.
Esses viajantes do século XIX aportavam no Brasil imbuídos de um espírito “missionário,” como se, tal qual irmãos mais velhos, viessem retirar, sim, mas também ensinar. Por outro lado, seus vínculos com as instituições que os financiavam faziam deles “piratas científicos,” que retornavam carregados de espécimes e objetos culturais prontamente instalados em museus e coleções do estrangeiro.9
O príncipe Maximiliano I da Baviera, por exemplo, que esteve no Brasil entre 1815 e 1817, carregou para seu castelo em Neuwied nada menos que um herbário contendo 5000 plantas brasileiras, além de centenas de insetos de espécies variadas centenas e outros exemplares da natureza, sem esquecer de um “pequeno Botocudo.” Era a voga do colecionismo, e a própria humanidade entrava nesses novos arquivos coloniais. Já o famoso botânico Auguste de Saint-Hilaire veio na mesma missão. Ele conhecia bem a literatura científica, assim como os procedimentos práticos de um naturalista: noções de agricultura, de confecção de herbários, de transporte de vegetais e dissecação de plantas. Coletou o que pode e enviou espécimes para a França e a Martinica.10
Foi com o casamento da arquiduquesa d. Leopoldina, em 1817, que o interesse germânico desembarcou no Brasil. Junto com a princesa (ela própria uma naturalista), chegariam duas missões científicas: a austríaca e a bávara, dirigida por Spix e Martius. A colheita da dupla, dedicada ao protetor régio, Maximiliano José, abrangia além de uma “parelha de índios,” 85 espécies de mamíferos, 350 de aves, 130 de anfíbios, 116 de peixes, 2.700 insetos, 80 aracnídeos e crustáceos e 6.500 plantas.11
Martius se sagraria vencedor do primeiro concurso realizado pelo IHGB, em 1844, com o curioso título: “Como escrever a história do Brasil.”12 Partia da metáfora hídrica da mistura de rios – um rio branco caudaloso, outro indígena menor e outro negro, ainda menor. O naturalista conhecia mais das plantas do que da humanidade, tanto que pouco sabia da contribuição dos povos indígenas e africanos. Mesmo assim, e em sendo ele um estrangeiro, idealizou o primeiro Programa de como “inventar” uma história do país que seria, já nesse momento caracterizado pela mistura única de povos, mas com a manutenção da hierarquia.
Para eles o território dos portugueses era, portanto, uma sorte de estufa da natureza, e um “laboratório racial” da humanidade. O próprio von Martius recuperaria a noção da degeneração dos autóctones, no texto chamado “o estado de direito dos indígenas autóctones do Brasil.”13 Afirmou, então, ter encontrado indígenas remanescentes de povos superiores, mas agora em estados decaídos.
Mas nem tudo era teoria na vida desses viajantes. Aliás, muito pouco, pois, o mundo tropical cobrava, lá, seus tributos e pedágios. Na expedição do barão de Langsdorff, Rugendas pegou malária, Adrien Taunay morreu afogado, T. Ender, que também acompanhava a expedição, como desenhador, voltaria à terra natal mas sem memória e o barão perdeu o juízo.
Enfim, o tema é vasto, os naturalistas muitos – e não é nossa intenção esgotá-los. Nosso ponto é, em primeiro lugar, entender como num momento em que escolas e instituições brasileiras apenas se formavam, esses relatos transformaram-se nas primeiras “interpretações do Brasil.” Informados uns pelos outros, esses textos e desenhos criaram um verdadeiro “sistema explicativo,” muitas vezes sem autoria assinalada, formalizando temas que ganhariam força no começo da República, como a questão da mistura racial e a exaltação dos trópicos. Autores como Euclides da Cunha, Adolfo Caminha e, depois deles, Sérgio Buarque de Holanda e Florestan Fernandes, se apoiaram nessas obras, de maneira mais ou menos crítica, para tecer suas análises. Também os vários Institutos Históricos e os Museus de História Natural, que iam sendo criados nesse contexto de finais do XIX e inícios do XX, usaram desse tipo de conhecimento como base de sua produção.14
Gostaríamos, porém, de destacar um segundo aspecto, que vem sendo apenas mais recentemente problematizado, na produção destes viajantes.15 O lugar dos guias e especialistas nativos que seguiam junto nas expedições; verdadeiros cientistas esquecidos nos registros do tempo e no arquivo colonial.
Naturalistas raramente viajavam sozinhos ou apenas com seus correligionários. Precisavam de tradutores para se comunicar, guias para acompanhar os caminhos, sábios locais para identificar as novas espécimes. E tal tipo de conhecimento é essencial para entendermos essa ciência feita em campo. Sem eles, não existiria a produção científica e o material recolhido destas viagens, ao menos tal qual as conhecemos. O certo é que conviviam nessas ocasiões formas heterogêneas de conhecimento – e o diálogo nem sempre era levado de maneira amistosa ou consensual.
Mary Louise Pratt chamou atenção para como relações raciais, de gênero e de classe, foram apagadas dessa literatura. “Onde estão todas as pessoas?” pergunta ela. Por isso, inúmeras passagens presentes nesses relatos aparecem sem sujeito, com afirmações do tipo: “minha bagagem chegou”, “a canoa estava carregada.”16 Essa maneira de narrar, de tão comum, virou um estilo próprio, com a redação indireta permitindo exaltar o lugar dos naturalistas – que eram também aqueles que assinavam os livros – e esconder outros protagonismos partilhados nessas viagens.
A expedição cientifica portuguesa, comandada por Alexandre Rodrigues Ferreira, entre os anos de 1783 e 1792, e que percorreu as Capitanias do Norte e Oeste do Brasil, foi considerada o mais importante empreendimento científico patrocinado pela Coroa lusitana. Com o objetivo de reconhecer o domínio português em suas colônias além-mar, a expedição adentrou o interior do Brasil, com o naturalista tecendo comentários a respeito do uso e ocupação local, mas também elaborando descrições etnográficas e coletas de materiais dos reinos mineral, animal e vegetal, percorrendo no período em que esteve à frente desta empreitada, aproximadamente 40.000 km.
Também descreveu os diversos aspectos naturais e sociais do território brasileiro, elaborando memórias e relatos das paisagens e regiões que investigara. Interessante pensar nos grandes e pequenos desenhos deixados acerca dessa expedição. Mais uma vez, a paisagem é paradisíaca, alternando a floresta com o mar tranquilo onde se divisam algumas canoas, quem sabe pertencentes à própria expedição. Se aumentarmos a imagem, veremos em detalhes dois naturalistas em pleno trabalho: classificando coleções e escrevendo relatos em sua prancheta. Ambos trazem vestes completas, com as meias encostando em suas calças, chapéus e botas ou sapatos vistosos. À direita se divisa, inclusive, uma pequena estante de livros: símbolo maior dessa cultura ocidental. Mas se apurarmos o olhar, na mesma direção, mas mais ao fundo, veremos uma pessoa negra, provavelmente escravizada, que carrega uma carga pesada e arqueia seu corpo sob o peso dela. Suas roupas são simples deixando ver seus braços nus.
Ilustração da “Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira às capitanias do norte e oeste do Brasil”.Mas se, nesse caso, os demais integrantes da expedição estão presentes, é interessante destacar, como o faz Pratt, de que maneira, a partir dos Novecentos muitos viajantes produziram ativamente uma paisagem androcênica, em que performavam a tópica de um Adão solitário, perdido em meio a uma natureza, igualmente apartado de outros seres humanos e não humanos – o que também não era verdade.17
Ilustração constante em Johann Baptist von Spix. Viagem pelo Brasil von Spix e von Martius. São Paulo/ Petrópolis. Edusp, Itatiaia. 1982.Na imagem de Spix e Martius, essa visão dos trópicos edenizados se confirma. Hoje sabemos que os dois cientistas percorreram regiões, já à época, bastante habitadas, além de terem contado com guias e especialistas como acompanhantes. Mas os cientistas quiseram se fazer retratar enquanto conquistadores solitários diante de uma natureza majestosa. Aliás, os naturalistas, postados bem ao centro da imagem, aparecem com uma postura corporal que denota estarem totalmente absortos, em plena atividade científica – como se nada mais incomodasse ou competisse com a atenção deles.
Jean-Baptiste Debret. Viagem pitoresca ao Brasil, 1815-22.No mesmo contexto, Jean-Baptiste Debret, que chegou ao Rio de Janeiro junto com a assim chamada missão científica de 1816, se autorretratou em seu gabinete. A despeito da situação aparentemente relaxada – já que ele está sentado numa rede, veste uma espécie de roupão de quarto e tem seus pés protegidos apenas por um chinelo –, a imagem é tomada pela atenção que dirige ao corpo do artista, o qual, por sua vez, lê e trabalha concentrado (com várias folhas escritas, já soltas no chão). A cena se completa com um pote de tinta e algumas penas de escrever, localizadas ao lado do protagonista e dispostos em um banquinho, além dos objetos que ajudam a compor a representação, tão inesperada como heroica: um globo terrestre, vários livros, um pássaro taxidermizado na parede. Tudo isso em um ambiente quase estoico de tão simples, mas com a luz clara dos trópicos a iluminar tudo.
Esse era um exemplo da imagem que se queria guardar. A do cientista despojado, abnegado em seu trabalho, que enfrentava tudo, e, ademais, absolutamente só. Esse é o caso de Brasil, Novo Mundo, de Eschwege; naturalista, que, como bem mostra André Bailão, descreve seu cotidiano no interior de Minas Gerais seguindo o mesmo tropo adâmico:
Eu contemplava de uma elevação a região deserta à minha volta, onde tudo era tão desolado, e, no entanto, tão exuberante, tudo tão selvagem, e, no entanto, tão suave, sentia-me como Adão no paraíso, quando ele ainda estava só. Como ele, também eu era ali senhor de tudo o que meus olhos alcançavam. Certamente ele se sentira tão solitário quanto eu, até que apareceu Eva, em cujo seio pôde derramar todos os seus sentimentos e sensações.18
É o sentimento de dominação masculina branca, e de uma ciência europeia que se impõe sobre uma paisagem supostamente esvaziada de pessoas e dominada pela ciência: “Nunca me senti tão só e abandonado como quando pernoitava ou errava pelos campos sem fim, em geral tão belos, dos sertões de Minas.” Porém, no mesmo parágrafo o engenheiro de minas se trai ao mencionar a companhia de outras pessoas: “Meu coração se confrangia violentamente quando, depois de muitas milhas de estrada, tendo subido uma colina ou uma montanha, de lá via novas colinas e montanhas que teria de subir sem contar com a doce expectativa de encontrar do outro lado uma habitação humana ou uma pessoa que fosse.” Até que o guia interrompe o idílio dizendo: “Debaixo daquele palmeiral, à margem daquele rio passaremos a noite.”19
Como se pode notar, essa era uma estratégia narrativa e visual comum a esse gênero literário pitoresco, no sentido de “pintoresco,” que sempre retomava os mesmos tropos. Por exemplo, na expedição fluvial dirigida por Langsdorff, seguiram junto os desenhistas Hercule Florence e Adrien-Aimé Taunay, o botânico prussiano Ludwig Riedel, o astrônomo russo Nestor Rubzov, um piloto, três proeiros, dois ajudantes ou contrapilotos, dezoito remadores, um guia e um substituto.20 Além deles, três homens escravizados por Langsdorff viajavam com eles: Alexandre, caçador e preparador das coleções zoológicas; João, cozinheiro e alfaiate; e Roberto, que assumiu a função de Alexandre após a morte dele. Todavia, essas pessoas que não só acompanhavam as expedições, como garantiam o sucesso pragmático e mesmo teórico das mesmas, aparecem apenas nos apêndices ou em espaços desimportantes da obra.

Nesse sentido, se na imagem da esquerda Hercule Florence devolve a mesma imagem do naturalista solitário e desbravador, já na imagem da partida da expedição, o ângulo acaba beneficiando os demais participantes do grupo. Eles seguem pelo rio Tietê numa embarcação bastante frágil e é possível distinguir os barqueiros à direita, todos negros, o capitão mais à esquerda, e com cor mais clara, um assistente que joga fumaça repelente de insetos, e, nesse caso, Langsdorff é quem está protegido no interior de uma cabana improvisada. Ele é uma presença ausente: ou seja, sabemos que lidera a expedição, mas não nos é dado vê-lo, nesse momento de trabalho braçal e não intelectual.
Saint-Hilaire, já aqui mencionado, se refere ao tocador Manoel, “um homem negro forro” que sabia cuidar dos animais, e dominava os trajetos. Como ele, eram sempre os ajudantes que caçavam as aves e insetos que iriam compor as coleções, e que empalhavam os espécimes. Menciona, ainda, o arrieiro José Mariano no posto de empalhador e preparador da coleção zoológica.21
Aliás, eram esses guias que abriam picadas, garantiam passagens pelos rios, davam explicações acerca dos usos culinários e medicinais de plantas. E não só! Eram eles também os responsáveis pela coleta, descrição e explicação das plantas desconhecidas que na sequência surgiriam não só nos futuros herbários europeus como nos compêndios botânicos que iam sendo publicados com as novidades do Novo Mundo.
O príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied deixou para o apêndice de sua obra esse tipo de “detalhe”: “Habituados com tudo o que concerne às caminhadas no interior, esses homens conhecem perfeitamente as mínimas particularidades do seu ofício [...]. Se se teve a felicidade de encontrar um bom tropeiro, está vencido o ponto principal da empresa.”22 Ou seja, é só nessa parte menos importante da obra, que o naturalista revela a importância dessas pessoas para o sucesso da empreitada.
Sabemos apenas o primeiro nome do guia contratado por Lund e Riedel nas viagens que realizaram entre 1833 e 1835 – ele se chamava Henrique. Viajante experiente, o guia atuara anteriormente como assistente do naturalista prussiano Friedrich Sellow, que, durante a década que passou no Brasil, foi apoiado pelo governo da Prússia. O naturalista acabou morrendo afogado no rio Doce – acidente que garantiu a alforria a Henrique, pois a liberdade lhe fora afiançada em testamento.23
Langsdorff, um naturalista prussiano que chegou ao Rio de Janeiro em 1813, na função de cônsul geral, descreve em seus diários como por aqui tornou-se fazendeiro. Explica também como seus escravizados tinham dupla função: cuidavam das terras, mas também tomavam parte das expedições. Não tem pejas em narrar que, enquanto naturalistas seguiam marcha a cavalo, os africanos iam a pé e descalços, machucando-se nas estradas cheias de pedras de quartzo. João, um dos escravizados, ficou doente em Minas Gerais e foi vendido para um capitão local. Isso porque o viajante não quis arcar com os custos hospitalares. Outro cativo foi também vendido: nesse caso para ajudar nas finanças da expedição.24

Vale destacar que na imagem que Adrien-Aimée Taunay deixou sobre a expedição, apenas Langsdorff aparece de frente e de maneira reconhecível. Os demais, por estarem trabalhando, não merecem maior definição.
Entretanto, se a maioria dos viajantes estrangeiros é absolutamente econômica quando se trata de falar das proezas de seus guias e acompanhantes, alguns reconheceram as capacidades extraordinárias, tanto práticas como intelectuais, desses seus interlocutores. José Bonifácio, o conselheiro de Pedro I, era grato a dois sábios geógrafos africanos que teriam lhe explicado, de forma definitiva, o curso do rio Nilo.
Esse é também o caso de George Gardner que, entre o verão de 1836 e o outono de 1837, permaneceu cerca de seis meses hospedado em uma fazenda escravista do britânico George March – localizada na região serrana do Rio de Janeiro. Gardner queria herborizar o topo da Serra dos Órgãos e só conseguiu realizar a façanha por causa de quatro homens negros escravizados. Um deles é identificado como pai Felipe, um sexagenário acostumado desde a infância a circular pelas matas da região e que possuiria um “vasto conhecimento.”25 Por sua vez, o pintor Nicolas-Antoine Taunay disse ter sido obrigado a comprar três escravizados para trabalhar e aprender a produzir “café” em sua propriedade, que nomeou Bourbom. No retrato que fez de si, o pintor, que se auto-representa de fraque e cartola, rodeado pela imensa natureza do Brasil, não esquece de incluir dois de seus escravizados, os quais, nesse contexto, não trabalham, apenas observam a atividade de seu senhor.26
Nicolas-Antoine Taunay. Cascatinha da Tijuca. 1816-21. Óleo sobre madeira, 51,5 x 49 cm. Museu I Reinado / Casa da Marquesa de Santos / FUNARJ, Rio de Janeiro.Várias pessoas indígenas, pertencentes a diferentes etnias foram arregimentadas pelos viajantes. Dois homens krenak, da região do vale do rio Doce, ficaram famosos. Seus nomes eram Joachim Quak, ou Kuêk, um jovem catequizado que entrou no grupo de Maxiliam de Wied-Neuwid como intérprete, guia e conhecedor da natureza. Foi levado ao principado alemão em 1818 e seus restos mortais só foram retornados ao povo krenak em 2011. Firmiano é outro jovem krenak que acompanhou Saint-Hilaire em várias viagens pelo interior do Brasil. Ele era seu ajudante não só na caça, como no preparo e classificação das coleções zoológicas.
Spix e Martius levaram para a Europa uma série de indígenas que foram incluídos nessas viagens como “peças vivas de gabinetes.” Ao fim da viagem, e de passagem pela Amazônia, Martius comprou, ou sequestrou, cinco crianças Miranha e Juri, sendo que quatro delas seguiram para a Europa em 1820. Duas morreram no trajeto e duas viveram em Munique até morrerem por doenças pulmonares um e dois anos depois da chegada.
Sabe-se hoje que, ao chegarem à América Portuguesa, Spix e Martius pouco ou quase nada conheciam sobre os povos americanos. Como cientistas educados a partir do ambiente das luzes, eram formados no assim chamado “homem americano” a partir das teorias de Carl von Linné e do conde de Buffon. Como alemães de origem seguiam os modelos de Johann Friedrich Blumenbach e de Immanuel Kant, famosos defensores da superioridade dos europeus diante dos demais povos, em geral qualificados como “selvagens.” É possível encontrar esse tipo de concepção não apenas no trabalho aqui citado previamente, como nas páginas da narrativa que Spix e Martius publicaram entre 1823-1831, com o título de Reise in Brasilien (Viagem pelo Brasil). Os cientistas afirmam, por exemplo, que “algumas raças, embora organizadas, são ‘inferiores’ ao europeu que possuiria uma constituição superior dos órgãos e forças intelectuais superiores.”27
Durante sua estada no Rio, os dois cientistas quase não tiveram oportunidade de entrar em contato com grupos indígenas. Mesmo assim, no primeiro ano de estada, em visita à casa do naturalista alemão, barão G. H. von Langsdorff, encontraram um botocudo. Foi então que o termo “peça viva de gabinete” foi usado por Spix e Martius, justamente quando observaram como o Cônsul exibia o indígena para seus convidados.
Não há como saber se foi a partir daí que conceberam a ideia de incluir indígenas na coleção que pretendiam organizar e levar consigo de volta à Europa. De toda maneira, quando a dupla passou por Minas Gerais, e visitou a Fazenda Guidoval, conviveram pela primeira vez com Puris e Coroados, reunindo uma rica coleção etnográfica desses povos, além de incluírem dois jovens coroados em seu “acervo.” Para disfarçar a culpa, mas não o preconceito, assim descreveram a situação:
Na véspera da partida, à tarde, trouxeram dois jovens Coroados à nossa casa, e os animaram a seguir conosco, com a promessa de cachaça e de voltarem como capitães, com vistosas fardas. Dava vontade de rir ao ver o feito que um uniforme reluzente produz nesses homens das selvas [...] Desse momento em diante, estava tomada a resolução, e ele mostrava o prazer de acompanhar-nos.28
Fica evidente não só a ironia como a tentativa de “naturalizar” o fato de que, na realidade, os naturalistas “sequestraram” duas pessoas para seguir curso com eles. Tanto é fato, que um deles fugiu logo quando a expedição deixou a Fazenda, e o outro, de nome Custódio, evadiu-se oito meses depois, justamente quando a expedição visitava aldeias Kamakã no sul da Bahia. Restou apenas o retrato do Coroado.
Não é anacronismo dizer que esse tipo de situação causava constrangimento também naquela época. A prova é que Martius construiu várias versões para explicar por que quatro indígenas jovens, dos grupos Miranha e Juri, passaram a integrar a caravana bávara. Há quem acredite que o cientista tinha ciência, previamente, de que o chefe Miranha estava preparando uma incursão militar com o fito de capturar prisioneiros para serem negociados pessoalmente com o capitão Zany e com ele próprio. Uma outra versão, escrita pelo próprio Martius, afirma que ele estava interessado em negociar só objetos de cultura material, mas um tuxana teria lhe “oferecido” cinco jovens indígenas – duas moças e três rapazes – em troca de machados e facas. O botânico, então, explica que aceitou os jovens índios “das mãos do desumano, com tanto maior empenho, quanto sabia que, ficando aqui, eles teriam morte certa, por já estarem todos atacados da febre.”29 Ou seja, a captura de crianças não fora resultado de algum acordo prévio; sua intenção era apenas e tão somente “humanitária.”
Dois indígenas foram deixados no Pará.30 Outros dois, um menino e uma menina, seguiram com o grupo. Martius, em uma de suas explicações, afirma que a menina lhe havia sido ofertada pelo governador do Rio Negro, e que o jovem Juri agregou-se à expedição quando passaram nas terras de Zany em Alvelos.31 A quantidade de versões, revela, no mínimo, um certo incômodo de Martius com a presença dessas crianças, e, depois, com o pouquíssimo tempo que viveram na Europa.
Ainda era verão quando os dois bávaros e os dois indígenas aportaram em Lisboa. Permaneceram nesta cidade apenas o tempo necessário para despachar suas coleções à Baviera e cuidar dos documentos para poderem seguir para Munique. O grupo chegou à capital da Baviera em 8 de dezembro de 1820, ano em que o inverno foi dos mais rigorosos. O fato é que todos já adentraram a cidade muito debilitados.
A comitiva foi então recebida em audiência por Suas Reais Majestades, com as crianças sendo apresentados à corte de Maximiliano José I, momento em que os dois cientistas receberam o título de Cavaleiro da Ordem ao Mérito da Coroa da Baviera. Mas com o tempo a recepção calorosa tendeu a arrefecer, com os jornais achando a menina feia e pequena e espalhando boatos de que ela teria sido responsável pela morte do pai. A realidade, porém, é que os dois não se adaptaram ao severo clima europeu e foram acometidos por tosses, febres. Provavelmente estavam não só enfermos como solitários e assustados. Juri morreu em junho de 1821, e Isabela no ano seguinte. Em homenagem póstuma aos dois, a rainha Karoline da Baviera mandou construir uma lápide para abrigar os restos mortais deles, e contratou o artista Johann Batist Stiglmaier – diretor da Real Academia de Artes – para fazer a estela mortuária.
Nela, os dois jovens parecem estar dormindo. O rapaz, em primeiro plano, veste apenas uma faixa em torno de seus quadris. A indígena traz na cabeça uma tiara que lembra um cocar, usa um colar e uma saia de penas. Nada parece lembrar as imagens que deles se fizeram. A representação que pretende perpetuá-los é pura imaginação.
Uma inscrição completa a tumba mortuária: “Furtados da pátria, encontraram cuidados e amor no longínquo lugar do mundo, porém, o implacável e hostil vento do norte os levou.” O texto apaga ou camufla o remorso para culpabilizar a própria natureza deles e o inverno europeu.
Apenas quando estava à beira da morte, o botânico reconheceu seu papel no destino trágico dos dois indígenas, ao deixar a seguinte nota:
Um ano depois, quando o rapaz morreu em Munique, do mal dos pulmões, isso voltou a mim como uma carga muito pesada […] Eu paguei o perigo de ter o endurecimento da alma e com isso aprendi amor e admiração pela natureza humana. Através de uma má ação me transformei num amigo da humanidade.32
Celebração indígena no Mato Grosso registrada em gravura presente em obra de Carl Friedrich Philipp von Martius
Miranha (Isabela), 1823. P. Lutz (desenhista [?]; sem identificação do gravador). Litogravura; 67 x 45 cm
Juri, 1823. P. Lutz (desenhista [?]; sem identificação do gravador), Litogravura; 67 x 45 cm. Fonte: Spix e Martius, 1823-1831. Reise in Brasilien, vol. IV, Atlas, prancha 15.Nas imagens acima, vemos, em primeiro lugar, a representação do desencontro entre civilizações e de costumes. Na primeira, os naturalistas observam, apartados, um ritual indígena. Na extrema esquerda, um guia negro também acompanha com espanto a cena que mostra, provavelmente, as negociações por peças materiais e humanas. Esse era, simbólica e praticamente, o extremo da arrogância ocidental.
Abaixo dela, os dois garotos, cujas vidas foram ceifadas pela gula dos naturalistas que transformavam tudo que encontravam em peças para engrossar seus gabinetes, e silenciavam não só sobre os verdadeiros especialistas e sábios nativos que os acompanhavam, como acerca das violências que perpetraram ao sequestrar pessoas, e sobretudo crianças que tinham pouca possibilidade de reação.
Por fim, na colagem criada pela artista contemporânea, indígena e negra, Gê Viana, aparece uma outra imagem de Miranha devolvendo a ela sua origem, território e identidade. Em tempo: Até hoje não sabemos os nomes das crianças indígenas, que foram chamadas, após serem batizadas na Europa, de Johannes e Isabella.

Arcadio Diaz-Quiñones mostrou como em situações de clara desvantagem (econômica, política, social) é preciso “bregar.” Também é preciso bregar pela memória. Nos cantos dos documentos, nos apêndices dos livros, nos deslizes deixados nas frases, nos detalhes presentes nos desenhos dos naturalistas, nas frestas do arquivo colonial, restam pistas destes pensadores nativos, verdadeiros tradutores transatlânticos. Eles não apenas “acompanhavam” as expedições. Eles anotavam, classificavam, desenhavam; faziam teorias da natureza.33
Notas
Artigo originalmente publicado na revista Letterature d’America, Ano XLV, nº. 205, 2025, do Departamento de Estudos Europeus, Americanos e Interculturais da Sapienza, Università di Roma.
Tags: expedição guias decolonial
Figuras essenciais nas expedições científicas, os guias e seus ajudantes são aqui analisados por meio dos textos e das imagens produzidas por dois importantes observadores europeus no Brasil da primeira metade do século XIX, Jean-Baptiste Debret e Hercule Florence.